Todos os posts em: Feminismo

O silêncio do feminismo em torno do funk putaria

Acompanhando a alta de preço das passagens de ônibus Brasil à fora, a tarifa em Belo Horizonte se fixou em R$3,70 desde o começo do ano. Se nunca fui muito chegada a pagar passagem, depois do aumento então… Quarta feira, por volta das dez da noite, um grupo de quatro meninos ocupavam os bancos da frente do 9101. O mais novo devia ter uns 13 anos, o mais velho uns 21. Boné, sobrancelha feita, pézinho aparado, uns tênis daora. Eles não passariam a roleta, nem eu. Não sei bem como, começamos a conversar. Papo vai, papo vem, revelei ser DJ de rap e funk. Já esperava a reação: – Você!? Branquinha assim? Não tem cara, parece que gosta de rock (provavelmente por causa das tatuagens, vai saber). – É, eu sei, todo mundo se espanta, mas ouço funk desde menorzinha – e o papo seguiu. Falei de alguns incômodos que tinha em relação a certos caminhos que o funk estava tomando, da falta que eu sentia da presença de mais MCs mulheres e da dificuldade de …

Com 12 mil likes, a página do blog Clitóris Livre é arbitrariamente deletada do Facebook

Sobre proibições de se dizer o que pensa Aconteceu no começo do ano. Eu estava bloqueada há um mês de postar, curtir ou comentar qualquer coisa no Facebook por algo que tinha postado na página do blog, acho que um gif de uma ilustração (isso mesmo, um desenho!) de uma menininha de cabelos curtos que recebia um oral. Passei o ano novo no interior de Minas, num pico lindo, e quando cheguei em casa me deparei com a notícia que a página tinha sido deletada por não estar de acordo com os valores da rede social. A página do Clitóris Livre, que agora refeita, conta 300 e poucas curtidas, antes de ser deletada tinha mais de doze mil. À princípio eu não liguei muito, ou não tive reação, mas depois fiquei pensando nos significados simbólicos disso, e fiquei bolada. O Facebook que se diz à favor dos direitos dos gays e da liberdade do relacionar-se e o cacete, faz avatar de bandeirinha colorida e tudo o mais, é o mesmo que silencia uma mina que …

O diálogo como ativismo filosófico: Márcia Tiburi lança livro “Como conversar com um fascista”

https://clitorislivre.com.br/2015/10/29/o-feminismo-nao-esta-acima-de-criticas-por-uma-militancia-que-saiba-ouvir-e-dialogar/Pra mim o feminismo faz parte de uma luta maior, que envolve também, por exemplo, a justa distribuição de rendas e terras; o fim do trabalho escravo e da precarização do trabalho; o direito básico à moradia, saúde e educação; o fim da criminalização da pobreza na pretensa “guerra às drogas” que vivemos; a desmilitarização da polícia militar; o fim imediato da gestão criminosa de recursos naturais pelas mineradoras e pelo setor agropecuário; o fim do consumo desenfreado de agrotóxicos e todo tipo de venenos que nos enfiam goela a baixo todos os dias, e daí por diante. Como uma grande linha emaranhada, percebo que todas as opressões estão relacionadas, e na medida em que se afrouxa um nó, fica mais fácil desatar o outro. Encaro o feminismo como um instrumento de libertação, não um fim em si mesmo. Sou ambiciosa em minhas utopias: desejo muito mais que a libertação feminina, desejo a libertação humana; e por quê não de todos os seres, inclusive de nossa mãe terra, o solo onde se pisa e daonde provém todo …

Apesar da ampliação, discurso feminista ainda continua muito restrito à classe média

Como já escrevi por aqui antes, muito do meu despertar enquanto feminista (e mais! enquanto mulher) se deu quando comecei a perceber o papel desempenhado por minha mãe dentro de casa e, por ser mulher como ela, reconhecer-me como possuidora de um destino social análogo ao seu. De forma similar, depois de ter me assumido feminista foi novamente observando minha mãe, e o modo como apesar de meu discurso emancipador eu continuava a tratando, permitindo que ela acumulasse praticamente sozinha quase a totalidade das tarefas domésticas da casa, que comecei a questionar a validade desse meu rótulo de feminista e a despertar para a importância urgência de alinhar discurso e prática. Eu acho que você pode falar o que você quiser – ser de esquerda, bradar feminismos, anarquias e revoluções – mas enquanto não for capaz de aplicar na prática, no campo micro, o que você pensa e fala, seu discurso não vale de nada. Foi a partir desse e outros incômodos com o modo como parte da militância vem sendo levada, que escrevi o texto “O feminismo não está acima …

O feminismo não está acima de críticas: Por uma militância que saiba ouvir (e dialogar)

Como outras milhões de mulheres, vibrei quando tive notícias que a prova do ENEM contou com questões que envolviam Simone de Beauvoir, Gloria Evangelina Anzaldúa e a violência contra a mulher. Para mim, foi mais uma confirmação da importância da temática na agenda brasileira, que agora além de pautar discussões nas redes sociais e na grande mídia, passa também a ser considerado conhecimento básico para ingresso nas Universidades públicas do país. Desde o surgimento do Feminismo em meados do século XIX e início do século XX (a dita “Primeira Onda”, em que mulheres de países como Reino Unido, Canadá e Estados Unidos lutavam principalmente pelo direito ao voto) acredito que nunca tantas mulheres se assumiram feministas como nos últimos cinco anos. As redes sociais tiveram um papel preponderante nisso. A profusão intensa de discussões, memes, relatos, textos, blogs (inclusive como esse) falando de temáticas femininas e feministas foi positiva na medida em que ajudou a promover o despertar de uma consciência coletiva da opressão e desse estar no mundo que é ser mulher. Frente à dificuldade …

Enquanto a mãe está na cozinha, a filha escreve sobre feminismo no quarto

Muito do meu descobrimento enquanto feminista se deu por causa da minha mãe, mesmo que ela própria não se afirme enquanto tal, e até mantenha uma certa antipatia pelo termo. Formada em enfermagem, embora nunca tenha exercido, minha mãe se casou com meu pai aos 27 anos, e me teve aos 28, época que ele trabalhava em uma loja de artigos dentários do meu avô. Quando eu tinha 4 anos minha mãe engravidou dos meus dois irmãos gêmeos e desde então tirou a sua vida para se dedicar à casa e à família. Quando eu era já crescida minha mãe decidiu fazer uma outra faculdade, de psicologia, apesar do meu pai nunca ter dado pra ela o devido valor nem incentivo pra que trabalhasse fora, pelo baixo salário que recebe uma pessoa em início de carreira. Ainda que tenha me dado uma educação emancipadora, falando abertamente de drogas e dos direitos (inclusive sexuais) das mulheres e me criando para ser uma mulher forte e independente, meu pai, fruto de uma outra época, sempre manteve uma …

“Adolescência Preta” – A época em que mantive fakes de minas brancas para tentar me adequar aos padrões

(Por Milena Badu) Com 14 anos eu conheci a internet de uma outra forma, parei com os jogos do ojogos.com e fui viajar nas redes sociais. O primeiro vício (o mesmo até hoje) foi o Twitter, numa época onde eu seguia Colírio Capricho, Revista Todateen e nunca achava mina negra pra seguir. Aos poucos fui percebendo o quanto eu era rejeitada pelos meninos por não estar no padrão das modelos Capricho. Pra tentar entrar no padrão “atraente” eu criei vários fakes de minas brancas pra “seduzir os caras” e sim, funcionava. Devo ter conseguido manter o caô em uns seis caras de estados bem distantes. Minhas auto estima era um lixo, eu me mutilava e não tinha amor nenhum por ser negra. Só contava pra esses caras quem eu realmente era quando eu achava que eles tinham criado um afeto por mim. A reações de todos eram exatamente iguais insultos racistas disfarçado de deboche, me diminuíam e me hipersexualizavam. A diferença no tratamento me assustava bastante, quando se tratava de uma fake branca era mensagens de amor aleatórias, …

Sororidade seletiva: travestis, transexuais e os limites da categoria mulher

Texto de Vanessa Sander para Clitóris Livre. Há algum tempo venho reparando um crescimento de discursos transfóbicos dentro dos espaços feministas (online e offline) nos quais circulo. E isso me incomoda, pra dizer o mínimo. As Terfs, Trans Exclusionary Radical Feminist, como convencionou-se chamar aquelas feministas contrárias a inclusão de pessoas trans, parecem ofendidas com o fato de que pessoas não designadas mulheres ao nascer possam posteriormente se identificar como tal. Elas satirizam tal identificação, tratando-a simplesmente como uma alucinação, uma escolha pessoal (num sentido individualista) sem maiores consequências, descolada de qualquer contexto. Vejo o ‘construcionismo caindo nas emanações radiantes do cinismo’, como diz Donna Haraway. Quando ressalto que todo gênero é desde sempre uma forma de construção profundamente real, para pessoas cis ou trans, as Terfs perguntam: “Ah! Então o que é ser mulher“? Muitas até admitem: “Ter buceta não determina o ser mulher. O que determina é a socialização que recebemos enquanto seres nascidos com buceta.” Desloca-se o determinismo biológico para o social. Trata-se a tal ~socialização~ como uma entidade metafísica, sem nuances, …

Empatia é verbo – Sobre transfobia no feminismo

Em uma discussão sobre o medo das feministas da internet de serem estupradas por travestis no banheiro feminino, me acusaram de estar sendo muito desrespeitosa ao afirmar que “ser mulher é muito mais que ter uma buceta”. Gostaria de tentar explicar melhor meu ponto de vista. Por motivos que seriam interessantes de serem pesquisados, mas que no momento tomo como pressupostos, existem no mundo arquétipos do que é o masculino e do que é o feminino. O conteúdo desses arquétipos não é fixo, mas sim objeto constante de luta e negociação, o que faz com que, felizmente, ser mulher hoje em dia signifique uma coisa bem diferente do que significava na época de nossas avós. A luta feminista, pelo menos a luta que acredito, se volta à desconstrução dos papéis de gênero impostos historicamente pela sociedade patriarcal. Não acredito que a mulher seja em essência NADA. A mulher não é doce por natureza, nem pior motorista, nem melhor dona de casa. Da mesma forma, não existe um ponto de chegada para o feminismo. Não existe …