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A cor da feminilidade não é a minha

(Por Milena Badu) Quando se nasce mulher, se é educada desde bem cedo a ser a melhor na performance de feminilidade pra atrair um companheiro. Quando se é socializada mulher preta, se é convencida que nunca vai ser a melhor na performance de feminilidade pra atrair um companheiro porque os companheiros nunca vão se atrair por você por um motivo muito simples: sua cor. Eu como uma boa adolescente sempre esperei um “amor verdadeiro”, aquele cheio de submissão, hierarquia de gênero e cavalheirismo. Nunca alcancei e por bom um tempo (e até hoje em certos dias) achei que o problema das minhas relações nunca prosseguirem fosse meu, totalmente meu. Eu tentei ser recatada, beber menos, fumar menos, dançar menos, falar mais baixo, deixar o cabelo crescer, usar roupas mais comportadas, sair menos de madrugada, ter menos amigos homens, ser mais reservada, falar menos putaria, transar menos. Não consegui sucesso em nenhuma dessas tentativas. Eu demorei a entender que o amor não chega pra mim porque o amor escolhe cor. Aquele mesmo “amor verdadeiro” submisso, hierárquico …

O empreendorismo não é novidade para as mulheres negras

(Por Raíssa Haizer) À frente de um grupo de mulheres negras empreendedoras todo dia fico a par de inúmeras situações desgastantes e preconceituosas para nós. A sociedade segue não valorizando o  trabalho de pessoas negras, e os brancos por debaixo dos panos muitas vezes continuam achando que estamos aqui para continuar servindo e doando nossos corpos para trabalhos mal remunerados, quase escravos. Por isso hoje decidi escrever sobre afroempreendedorismo na sua mais pura essência e ação diante de vidas negras. Me lembro bem de quando aos 14 anos dei entrada na ONG na rua debaixo da minha para começar o curso de cabeleireira, e meus colegas de escola me perguntarem porque não havia escolhido um curso de informática ou inglês. Respondi que ser cabeleireira meu sonho, logicamente uma mentira. Meu sonho era ser bailarina mas isso não daria dinheiro, não pra mim, negra e pobre. Quando decidi me tornar cabeleireira, minha visão não era de futuro, eu não pretendia me tornar uma profissional reconhecida, nem nada do tipo. O que motivava eram as necessidades que gritavam no momento presente: eu queria e …

Para as mulheres negras, só o amor próprio não basta

(Por Milena Badu) Alguns dias eu acordo querendo ser mulher branca, pedindo todo tempo pra Deus cabelos lisos e olhos claros. E antes que elogiem minha beleza e a estética da mulher negra, entendam que isso é sobre racismo e privilégios. Quando eu oro pra acordar como uma mulher branca, a oração não vem porque minha pele não me agrada e sim porque agressões diárias são cansativas. Eu oro pra ter acesso aquela cargo de emprego que me é negado, eu oro pra ser hipervalorizada pela sociedade, eu oro pra ser enaltecida pelos meus traços, eu oro pra que eu não tente mais mudar meu cabelo, meu nariz, meus lábios, eu oro pra não tenham mais nojo dos meus mamilos e vagina preta. A luta, a força e a garra são cansativas. A oração é o pedido mais sincero que eu faço pra que eu tente sair desse campo minado de machismo, misoginia e racismo. E o que a oração me traz como resposta é que só o amor próprio não basta, só a guerra, a …

(Auto)gordofobia

(Por Maíra Rodrigues) Chamei uma amiga ontem para conversar porque eu precisava de ajuda. Passei o dia andando na rua, aqui em Beagá, um dia frio, de vestido. O motivo? Ouvi dizer que tremer de frio faz emagrecer. A vontade de emagrecer era tanta que eu perdi o apetite. Me forcei a comer duas vezes ao longo do dia, mas comia e arrependia. Pra que ingerir aquelas calorias “a mais”? Ela foi fofa, como sempre é, ela entende o que é isso. Uma vida inteira sendo criada para se odiar, para achar que beleza está ligada a um tipo físico que é bem claro – claro mesmo: mulher bonita é branca, tem cabelo liso, comprido, pele lisinha-sem-manchas, é magra – não é esbelta, é magra mesmo. O que for diferente disso pode ser gostosa, exótica, estilosa, “com personalidade”, mas bonita não é. Tive uma fase quase magra quando criança. Fora isso, sempre fui gorda. “Mas, Maíra, você não é gorda”, tem amigues que sempre dizem isso. Não sei se estão tentando ser “legais” (porque ser …

“Adolescência Preta” – A época em que mantive fakes de minas brancas para tentar me adequar aos padrões

(Por Milena Badu) Com 14 anos eu conheci a internet de uma outra forma, parei com os jogos do ojogos.com e fui viajar nas redes sociais. O primeiro vício (o mesmo até hoje) foi o Twitter, numa época onde eu seguia Colírio Capricho, Revista Todateen e nunca achava mina negra pra seguir. Aos poucos fui percebendo o quanto eu era rejeitada pelos meninos por não estar no padrão das modelos Capricho. Pra tentar entrar no padrão “atraente” eu criei vários fakes de minas brancas pra “seduzir os caras” e sim, funcionava. Devo ter conseguido manter o caô em uns seis caras de estados bem distantes. Minhas auto estima era um lixo, eu me mutilava e não tinha amor nenhum por ser negra. Só contava pra esses caras quem eu realmente era quando eu achava que eles tinham criado um afeto por mim. A reações de todos eram exatamente iguais insultos racistas disfarçado de deboche, me diminuíam e me hipersexualizavam. A diferença no tratamento me assustava bastante, quando se tratava de uma fake branca era mensagens de amor aleatórias, …