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Receitas para arrancar poemas presos – Viviane Mosé

“A maioria das doenças que as pessoas têm São poemas presos. Abscessos, tumores, nódulos, pedras são palavras calcificadas, Poemas sem vazão. Mesmo cravos pretos, espinhas, cabelo encravado. Prisão de ventre poderia um dia ter sido poema. Mas não. Pessoas às vezes adoecem da razão De gostar de palavra presa. Palavra boa é palavra líquida Escorrendo em estado de lágrima Lágrima é dor derretida. Dor endurecida é tumor. Lágrima é alegria derretida. Alegria endurecida é tumor. Lágrima é raiva derretida. Raiva endurecida é tumor. Lágrima é pessoa derretida. Pessoa endurecida é tumor. Tempo endurecido é tumor. Tempo derretido é poema Você pode arrancar poemas com pinças, Buchas vegetais, óleos medicinais. Com as pontas dos dedos, com as unhas. Você pode arrancar poemas com banhos De imersão, com o pente, com uma agulha. Com pomada basilicão. Alicate de cutículas. Com massagens e hidratação. Mas não use bisturi quase nunca. Em caso de poemas difíceis use a dança. A dança é uma forma de amolecer os poemas, Endurecidos do corpo. Uma forma de soltá-los, Das dobras dos dedos …

A menina de lá – João Guimarães Rosa

“Sua casa ficava para trás da Serra do Mim, quase no meio de um brejo de água limpa, lugar chamado o Temor-de-Deus. O Pai, pequeno sitiante, lidava com vacas e arroz; a Mãe, urucuiana, nunca tirava o terço da mão, mesmo quando matando galinhas ou passando descompostura em alguém. E ela, menininha, por nome Maria, Nhinhinha dita, nascera já muito para miúda, cabeçudota e com olhos enormes. Não que parecesse olhar ou enxergar de propósito. Parava quieta, não queria bruxas de pano, brinquedo nenhum, sempre sentadinha onde se achasse, pouco se mexia. – “Ninguém entende muita coisa que ela fala…” – dizia o Pai, com certo espanto. Menos pela estranhez das palavras, pois só em raro ela perguntava, por exemplo: – “Ele xurugou?” – e, vai ver, quem e o quê, jamais se saberia. Mas, pelo esquisito do juízo ou enfeitado do sentido. Com riso imprevisto: – “Tatu não vê a lua…” – ela falasse. Ou referia estórias, absurdas, vagas, tudo muito curto: da abelha que se voou para uma nuvem; de uma porção de …