Relacionamentos e Sexualidade
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Reconstruindo a vida amorosa depois de um relacionamento abusivo – Tudo posso, mas nem tudo me convém

Eu ainda vou ter que escrever muito, mas muito mesmo, sobre o relacionamento abusivo que vivi nos últimos quase dois anos. É um assunto difícil, principalmente porquê é fácil colocar o homem como monstro, como único culpado, quando na verdade uma relação é sempre construída por duas pessoas.

Estou trabalhando no esqueleto de um livro sobre o assunto, meu primeiro livro de ficção. A minha história não é uma grande novidade pra ninguém. Com temperos diferentes de acordo com a classe social em que se insere, essa trama se repete cotidianamente.

Quantas e quantas mulheres já viveram exatamente o que vivi (até as falas se repetem) e com certeza todas que passaram por isso sabem bem o quão difícil é sair de um relacionamento que ao mesmo tempo nos afunda e nos prende.

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Depois que eu entrei nesse relacionamento, não demorou para eu criar a consciência de que algo ali estava errado. Entretanto, mesmo depois de ultrapassar meus limites morais e emocionais várias e várias vezes, eu demorei quase um ano para de fato conseguir sair.

Em grande parte porquê o ex continuava me procurando, perseguindo? Sim. Mas também porquê o apego também morava em mim, algo em mim não queria passar aquela página. Um relacionamento abusivo é capaz de aos poucos minar sua saúde mental e principalmente sua auto-estima. Ele corrói sua relação com o mundo e com você própria.

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Para sair de um relacionamento abusivo, ou nesse doloroso processo de soltura, você é obrigada a repassar vezes e mais vezes sua mente, seu corpo, suas memórias. Analisar com frieza cada pedaço de carne, pra entender por qual fissura foi que ele entrou.

Além de entender por onde entrou, pra sair de um relacionamento abusivo, é preciso entender como é que você permitiu que ele ficasse. Por quê? Quais carências suas ele atendia? O que era realmente bom nesse relacionamento? O que te atraía nele? Quais medos você tinha?

No meu caso, pensando sobre o apego que me prendia àquele relacionamento, percebo que haviam crenças muito enraizadas. 1) Que aquela pessoa era um grande amigo e companheiro, apesar de tudo 2) Que eu era feia, complicada e difícil de ser amada 3) Que apesar de tudo ele me amava demais, era doido comigo 4) Que eu nunca mais seria amada na vida, a não ser por aquela pessoa.

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Mesmo quando as duas partes já têm consciência da impossibilidade de viver aquele relacionamento que tanto machuca, algo ainda prende. A gente relativiza os erros, a gente tenta pensar no que existe de bom, além do abuso, além das noções distorcidas de amor. E dá-lhe recaídas, recaídas dolorosas, seguidas por sessões monstruosas de culpa e medo.

O ciclo de dor parece não ter fim. Mas certo momento, depois de muito rasgar o supercílio de tanto dar de cara com o fundo do poço, depois de chorar tudo que havia pra chorar, a gente acaba tomando consciência de que do jeito que tá realmente não dá pra ficar.

Se for pra ficar sozinha pro resto da vida, nunca mais ser amada, tudo bem, que seja. Você já está disposta a isso, uma vez que qualquer coisa é melhor do que o que você está vivendo, e você precisa no mínimo recuperar sua autonomia e o domínio sobre sua vida.

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Depois de muito sofrer, a gente cria coragem e vai embora. Corta os laços.

Você aos poucos vai voltando a cuidar de você, recobra parte da sua antiga espontaneidade, o sorriso volta a brotar. E ao contrário do que você imaginava, que ninguém ia te querer, etc, que nunca mais você ia beijar meia boca na vida (sério, eu tava pensando isso) começa a chover gente legal na sua horta.

Com um você consegue se deitar. Tem uma noite gostosa de carinho e sexo. Mas aí depois quando ele não demonstra o interesse que você imagina merecer, ou a atenção que você precisa naquele momento, você fica tão ansiosa que percebe que ainda tá machucada demais pra ficar com qualquer pessoa.

Com outro você sai e fala pra caralho, fala do ex, fala das suas dores, talvez mais do que devia (vocês ainda não tem intimidade pra tal). Com outro, você percebe que tem um bloqueio, que seu corpo e sua alma estão fechados, retraídos, e que vai ser preciso um pouco mais de jeito para qualquer pessoa entrar no seu templo novamente.

Tá que ainda é muito recente, mas passar por esse relacionamento me desenvolveu um certo bloqueio com homem, além de ter deixado o aprendizado de que nunca mais deixo qualquer pessoa entrar na minha vida sem conhecê-la muito bem antes.

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Adentrando novamente a curiosa vida de solteira

Pois bem, de qualquer forma, o que percebo dessa recente (e maravilhosa) vida de solteira, é que ao contrário do que eu imaginava, tem muita gente legal e solteira na pista.

Não sei se é só sorte de jogador “principiante”, ou se o Universo tá me pregando uma peça e só me oferecendo filé mignon enquanto eu não estou em condições de comer carne, mas ultimamente se eu quisesse dava pra sair com um crush diferente por dia.

Entretanto, eu não tenho energia pra isso. Não tenho disponibilidade emocional pra isso. Principalmente, porquê sei que não é isso que vai me satisfazer.

Primeiro porque eu sei que as feridas e fissuras internas, as carências que me levaram a entrar e permanecer por tanto tempo nesse relacionamento doente, ainda estão aqui. E que eu antes de tudo preciso olhar pra elas, trazer bálsamos de todas as naturezas para curá-las.

Enquanto eu não me curar, enquanto eu não tiver um tempo pra olhar pra dentro, reconhecer o que dói e o que está machucado, o mais provável é que eu acabe voltando vezes e mais vezes a relacionamentos não muito saudáveis.

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Segundo que como já escrevi exaustivamente nesse blog (aqui, aqui, aqui) o tipo de sexo que eu gosto não é em qualquer esquina que acha.

Sou adepta de um sexo que dá preferência ao toque, e relega a penetração a um papel secundário. Não é todo mundo que tá disposto ou tá desperto para essas possibilidades de contato, e nem todo mundo messsssmo que tá disposto ou afim disso. Terceiro que esse tipo de relação demanda intimidade, amizade, conexão… E nada disso é instantâneo.

Sendo tântrico (como acredito e gosto) ou não, o sexo é uma força que mobiliza muuuuita troca de energia. Estando machucada como estou, ou mesmo se estivesse de boa na lagoa, provavelmente seria mais difícil de me manter bem trocando energia em níveis profundos com várias pessoas ao mesmo tempo. (Tem gente que consegue, nem sente, mas eu realmente não consigo).

Então, o que estou fazendo no momento é tentando conhecer as pessoas que querem se aproximar de mim. Nesse último relacionamento, permiti que meu namorado me roubasse o direito de fazer novos amigos. Se fossem de longa data, tudo bem, mas aproximação com homens desconhecidos nem pensar. (Já não bastava ele na minha vida? Pra que mais?)

Então dos homens que me chamam a atenção, tenho gostado muito de levar pra passear. Sair e ir num cinema, ou ir fumar um na rua, tomar um suco, passar uma tarde juntos na cachoeira. Se conhecer.

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Uma coisa que percebo é que às vezes a gente se atrai por uma pessoa, talvez pela personalidade ou inteligência dela, e não conhece outro jeito ainda de viver esse carinho a não ser se pegando.

Acabamos levando pra cama pessoas que sentimos uma afinidade muito forte, mas cuja atração que sentimos talvez fosse uma atração de alma, uma amizade ou parceria criativa, e depois fica aquele clima meio chato, e por falta de maturidade das duas ou de uma das partes não conseguimos mais levar aquele relacionamento de forma leve e acabamos nos afastando.

Quero conhecer muito bem quem estou trazendo pra minha vida, e quero ter a chance de conhecer pessoas novas, e tocá-las, se for o caso, de uma maneira leve e não-sexual. Quero relações em que o toque seja permitido, e não signifique necessariamente sexo.

O problema é que vivemos ainda uma sociedade muito viciada no que tange aos relacionamentos. Fora as tensões sexuais quase intrínsecas da aproximação de homens e mulheres, não estamos acostumados ao toque nem de pele, nem de espírito. Sei que é um papinho meio clichê, mais é tão mais fácil despir o corpo que a alma, né? Transar é mais fácil do que ter uma conversa sincera sobre a vida e nossas emoções.

Como diria o Lulu Santos na eterna abertura de Malhação, hahahaha, “ainda vai levar um tempo pra fechar o que que feriu por dentro, natural que seja assim, tanto pra você quanto pra mim… ainda leva uma cara pra gente poder dar risada, assim caminha a humanidade com passos de formiga e sem vontade”

Se permita tirar esse tempo pra você, esse tempo de cura. Sem pressa, confortável com a sua própria solidão. Que gente legal tem aos montes na rua, e sim você é incrível, e essas pessoas vão reconhecer isso. E no fim a gente sabe que sempre aparece alguém pra dar uns beijos.

Vamos ter coragem de ficar sozinhas e nos curar para vivermos no futuro relacionamentos cada vez mais verdadeiros e profundos, principalmente com a gente mesmo. A gente merece.

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