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(Auto)gordofobia

(Por Maíra Rodrigues)

Chamei uma amiga ontem para conversar porque eu precisava de ajuda. Passei o dia andando na rua, aqui em Beagá, um dia frio, de vestido. O motivo? Ouvi dizer que tremer de frio faz emagrecer. A vontade de emagrecer era tanta que eu perdi o apetite. Me forcei a comer duas vezes ao longo do dia, mas comia e arrependia. Pra que ingerir aquelas calorias “a mais”? Ela foi fofa, como sempre é, ela entende o que é isso.

Uma vida inteira sendo criada para se odiar, para achar que beleza está ligada a um tipo físico que é bem claro – claro mesmo: mulher bonita é branca, tem cabelo liso, comprido, pele lisinha-sem-manchas, é magra – não é esbelta, é magra mesmo. O que for diferente disso pode ser gostosa, exótica, estilosa, “com personalidade”, mas bonita não é.

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Tive uma fase quase magra quando criança. Fora isso, sempre fui gorda. “Mas, Maíra, você não é gorda”, tem amigues que sempre dizem isso. Não sei se estão tentando ser “legais” (porque ser gorda é algo terrivelmente horrível na nossa sociedade) ou se o padrão deles é diferente mesmo. Se você acha que eu não sou gorda, saia pra comprar roupas comigo.

Pesava quase 100kg na adolescência, me escondia em roupas largas, anos sem usar vestidos ou saias, outros tantos usando somente cores neutras (cinza, marrom, preto, bege). Mas isso não é o pior. Pouquíssimas pessoas sabem disso, mas eu me auto flagelava por causa disso. Fazia cortes e arranhões na barriga – afinal de contas era um lugar escondido que ninguém ia ver – ou você acha que eu tinha coragem?

Pra minha sorte, não ficaram marcas. Por que eu me cortava? Porque era horrível demais, feia demais, gorda demais, esquisita demais, alta demais, meu cabelo era “ruim” demais, “duro” demais, meu quadril largo demais, meu nariz muito grande, minha boca, nem se fala, meu pé grande demais, minhas pernas grossas demais, meus braços flácidos demais.

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“Ah mas isso é coisa de adolescente blablabla”. Não. Não é. Eu me cortei dos 15 aos 28 anos. Parei de me cortar em 2013. Três anos atrás. Por um comentário simples que fez cair muitas fichas e me fez entender que os cortes eram tradução da minha culpa. Uma gratidão sem fim a quem me fez conseguir enxergar isso.

Me cortava com certa frequência, usando minhas unhas. As vezes que tentei com estilete, eu conseguia me controlar. Não era algo premeditado, entende? Mas em alguns momentos eu precisava daquela válvula de escape. Nem sempre era sempre, mas às vezes era mais de uma vez na mesma semana. Era uma forma de me punir por ser quem eu era, por ser muito diferente de tudo o que eu deveria ser.

Quando eu parei de me cortar, já tinha feito a transição do cabelo. Já falava sobre feminismo. Já me achava empoderada. É contraditório: falo sobre autoaceitação, autoestima, discurso contra a gordofobia mas sou eu mesma a maior gordofóbica comigo mesma.

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O padrão foi tão martelado e tão bem martelado na minha cabeça que me peguei pi-ran-do porque engordei. 4kg. Quebrei o dedo do pé, fiquei sem dançar um mês (e, consequentemente, ansiosa por causa disso, e consequentemente, comendo mais) e ganhei 4kg. Me senti horrível.

Olho minhas fotos e me acho horrível, não tem uma em que me ache bonita hoje em dia. Vejo fotos de 3 anos atrás, do início do ano e sinto saudades. Danço e sinto meu corpo lento, demorando a responder. Visto minhas roupas favoritas e todas ficam horrorosas em mim. Alguém me elogia e eu acho que a pessoa está mentindo pra mim, embora fique feliz em ouvir. Caminho contraindo o abdome na rua, na esperança de parecer mais magra, mais bonita.

Como e me arrependo de comer, fico feliz quando perco a fome, não ligo para a dor de estômago ou se fico tonta. Sinto saudades de quando fazia uma única refeição no dia (que durante um mês consistiu em uma pipoca aritana).

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Uma vez tentei por conta própria uma reeducação alimentar. Não deu certo. Perdi o apetite. Enjoava quando sentia o cheiro de comida. Mais de um mês quase sem comer comida de sal. Terminei um namoro em 2012 e sentia tanta raiva dele que não conseguia comer.

Perdi 7kg em um mês e meio. Fiquei feliz porque tinha emagrecido. Não fazia diferença se eu passava mal, eu me preocupava, claro, mas a felicidade por ter emagrecido superava todas as sensações.

Você pode achar que é drama. Mas o que eu sei é que se você pensa assim é porque provavelmente nunca viveu nada parecido. Na adolescência, minhas amigas eram as bonitas, as gostosas, que todo menino queria ficar  etc. Eu? Eu era a amiga legal, inteligente, a que todos queriam estudar com ela, aquela que os amigos homens dizem que é praticamente um deles.

Como não era “desejada”, aprendi que se quisesse ficar com alguém eu teria que me relacionar com quem quisesse ficar comigo. Então, eu me interessava pelos caras que demonstravam interesse em mim. Os amigos que demonstravam algum interesse o faziam escondido. Com várias desculpas – porque elas sempre existem -, ficavam comigo quando ninguém conhecido estava por perto.

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Cheguei em Belo Horizonte e descobri que no forró era mais fácil ficar com as pessoas. Eu ficava com um cara diferente a cada forró, com algumas poucas exceções que eu repetia. Muitas vezes, ficava com pessoas que não tinham nada a ver comigo, mas poxa vida, ele tá me dando mole e eu vou negar?

Demorou muito até que eu tivesse coragem de demonstrar interesse por qualquer cara, até aquele mais bonito da festa que todxs querem. Demorou até eu conseguir fazer isso e estar pronta pra receber um não sem desabar de novo. Demorou até eu fazer isso e entender que poderia ser um sim a resposta.

O padrão de beleza que a gente impõe para as pessoas é muito cruel. E a gente o faz todos os dias. Todos os dias. “Nossa, como você emagreceu! Tá bonita, hein?”. Você fala sobre seu cabelo crespo/cacheado, nariz grande, boca grande e o comentário da outra pessoa é: “é, eu sei como é, também puxei tudo de ruim da minha família” (WTF!!!).

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E aí, coleguinha, você que é magrx ou esbeltx ou sei lá como, mas que não é gordx, enche a boca pra dizer “NOSSA, COMO EU TÔ OBESA” “AI, TENHO QUE PARAR DE COMER, TÔ GORDX” (puxando um tiquim de pele da barriga)”NOSSA QUE BALEIA QUE EU TÔ”. Sabe o que é FODA? Você não sabe o que é ser gordx de verdade.

Você não sabe o que é as pessoas não quererem sentar do seu lado no ônibus. Você não sabe o que é as pessoas não quererem dançar com você porque acham que você é pesadx (e eu me divirto ao mesmo tempo em que fico me roendo de raiva por dentro com a cara de surpresa quando vêem que não é verdade) e o primeiro comentário – com cara de muita surpresa – é: nossa, como você é leve pra dançar.

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Você não sabe o que é dizer que trabalha com dança e a pessoa olhar seu corpo de cima a baixo pra “avaliar” se com aquele corpo é possível mesmo que você trabalhe com dança. Você não sabe o que é as pessoas mal mal darem trela pra você a sua vida inteira, mas se derreterem todxs quando te vêem bonita, dançando numa festa – e, claro, menos gorda do que quando te conheceram.

Você não imagina a raiva que me faz sentir. Você não imagina o quanto eu queria poder ter gravadas certas cenas da minha memória e te mostrar pra ver se você entende do que eu tô falando. Mas nem isso ia adiantar. Eu não ia conseguir te mostrar do meu ponto de vista, com as minhas sensações e com todo o histórico por trás delas. Então, por gentileza, a próxima vez que for falar alguma asneira nesse sentido, re-pense. Eu, sinceramente, não sei qual a graça em lutar contra opressão de um lado e oprimir de outro.

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3 comentários

  1. Bruna Castro diz

    Nosssa. Me vi. Falar sobre a gordofobia hoje é de suma relevância. Mas falar da autogordofobia acredito que seja mais ainda. Estamos impregnados de preconceitos, e nos impedimos de viver por conta desses. Belas palavras! Só quem passou ou passa por isso é que saberia descrever tão perfeitamente.

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  2. Debora diz

    Descobri hj esse site. E acho que esse texto não poderia me representar mais! Só tenho aplausos.

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