Relacionamentos e Sexualidade
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Entendendo o trauma: Por quê tantas mulheres tem bloqueio com masturbação?

Às vezes, quando estou chapada tomei umas e outras, gosto de chegar em casa e gastar um tempo me olhando no espelho. Olho fundo nos meus próprios olhos e tento adivinhar o que eles dizem, quais são os sentidos que se escondem por detrás das pupilas. Como diria Adélia Prado, “aceito os subterfúgios que me cabem, sem precisar mentir. Não sou feia que não possa casar, acho o Rio de Janeiro uma beleza e ora sim, ora não, creio em parto sem dor. Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.

Sei que sou uma mulher meio estranha, sempre fui assim. Na infância e na adolescência, eu era a amiga feia, divertida e inteligente; que gostava de música e dava notícia das coisas. Talvez por sempre ser preterida (na verdade quase que até o fim do ensino médio a possibilidade de eu me envolver numa paquerinha era praticamente nula) aprendi a ter interesses na vida, e isso me deu o desembaraço que eu tenho hoje pra conversar sobre quase qualquer assunto.

Foi quando entrei na faculdade de ciências humanas (onde o padrão do que é uma mulher bonita difere levemente do mundo playboy em que eu estava inserida na minha infância e adolescência) que me tornei uma mulher desejada e “desejável”. Apesar do tempo ter-me feito bem, é sem falsa modéstia que afirmo que os homens (e mais recentemente mulheres) que se atraem por mim não o sentem assim pela minha beleza externa, mas pela energia que eu carrego comigo, e que se manifesta de alguma forma exteriormente.

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Pintura: Euan Uglow

Tem gente que fala que a energia espiritual e a energia sexual comungam da mesma fonte. Pode ser. Eu tenho uma energia forte, e uma energia sexual forte. E então às vezes quando chego em casa depois de umas taças a mais de vinho e me ponho a olhar no espelho, reconheço o fogo que arde na minha pupila e me ponho a pensar nessa energia sexual, daonde ela veio, desde quando me acompanha, etc.

Eu sempre tive a sexualidade latente. Como com tantas crianças, uma das minhas brincadeiras favoritas na infância era brincar de sexo, e pelo que eu me lembro, era eu que sempre tomava a iniciativa em 99% das vezes na hora de inventar qualquer história-roteiro-pretexto para subir em cima de minhas amigas com a mão separando uma boca da outra (afinal de contas os beijos na boca eram grande tabus) enquanto relávamos uma na outra.

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Eu amava desenhar, mas desenhava quase que exclusivamente mulheres, com cinturinhas minúsculas entre bundas e peitões imensos. Eu tinha uma pasta, que escondia no fundo falso da última gaveta do meu armário, lotada de desenhos dessas mulheres, as quais eram personagens de verdadeiras histórias eróticas que eu criava na minha cabeça.

Quando eu tinha uns 22 anos reencontrei minha melhor amiga de quando eu tinha 7, depois de um hiato de quase 15 anos. Alguma hora, com um tom levemente ressentido, ela perguntou se eu lembrava de quando minha mãe depois de um certo tempo de amizade proibiu que tomássemos banho juntas e passou a acender a luz do quarto no meio da noite mandando que cada uma fosse dormir na sua cama. Eu não lembrava de nada disso, havia bloqueado completamente esse conteúdo da minha memória, mas não duvido nada que seja verdade. Acho que minha mãe sempre teve muito medo de que eu fosse lésbica (motivo pelo qual hoje em dia eu ainda seja tão falocêntrica?).

Apesar da intimidade que compartilhava com as minhas amigas ao brincarmos de sexo, e acessarmos sites pornôs e até mesmo salas de bate-papo (na época tinha disso), apesar de falarmos de sexo e sabermos que os meninos se masturbavam, inclusive juntos, eu não lembro de uma vez que falamos abertamente sobre masturbação enquanto éramos crianças ou adolescentes.

Clique aqui e leia uma excelente matéria sobre como lidar com a masturbação na infância

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Acho que desde antes de articular frases inteiras com eloquência, eu já sabia qual era o melhor lugar pra esquentar mão enquanto assistia desenhos na televisão. Talvez, por isso, aqui em casa tudo que envolvesse mão e perereca era um grande terror. Acho que “tira a mão da perereca, menina” foi a frase que eu mais ouvi na vida. Meu quarto não tinha chave e como o sexo ocupava grande parte do meu tempo/mente, ser pega me masturbando era um dos meus maiores pavores.

Esse medo profundo moldou a forma como eu me relacion(o)ava com sexo como um todo. Depois de passada a infância, praticamente não me masturbei durante a adolescência e segui assim por um bom tempo na vida adulta. Apesar dessa efervescência sexual na infância, perdi a virgindade relativamente tarde, aos 18 anos.

Depois que aprendi a gozar, não tinha dificuldades de chegar ao orgasmo acompanhada, inclusive múltiplos; mas continuei muito tempo dependente de um outro alguém para chegar lá. Eu simplesmente não conseguia sentir prazer sozinha. E se o fazia, era de uma forma mecânica e simplesmente como uma satisfação instantânea de uma necessidade, o que geralmente acontecia (uma vez na vida e outra na morte) em três segundos enquanto eu relava em alguma almofada enquanto assistia pornô.

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Assim, minha sexualidade foi direcionada: 1) à heterossexualidade 2) ao desconhecimento do meu próprio corpo, minhas fantasias e minha imaginação 3) à satisfação sexual exclusivamente através de um parceiro (e olha que eu ainda dei sorte nesse sentido, porque muitas mulheres nem isso), ou seja, a dependência de meu prazer nas mãos de outrém 4) ao aprendizado do que é sexo e do que dá tesão a partir de filmes pornôs que na grande maioria das vezes subjugam a mulher 5) ao desconhecimento de como me amar e me dar prazer. 😥

E pelo visto não foi só eu, compare os dados da frequência da masturbação masculina e feminina:

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Até hoje carrego alguns traumas (e vícios) em relação à masturbação e para rompê-los vou começar uma série de posts sobre isso… Sobre como romper com esse bloqueio que nos foi imposto (e que muitas de nós rompeu já na infância, mas outras carregam até hoje).

Vamos falar sobre técnicas de masturbação e auto-amor, discutir a pornografia e o que nos ensinaram sobre sexo e prazer até hoje e também como a tecnologia, nossa imaginação e os sex-toys podem nos ajudar nesse processo.

Essa série de posts está sendo feita em parceria com a Lolla SexShop, que vai nos mandar alguns brinquedinhos para testar e na medida que eu for testando vou fazendo resenhas aqui para o blog. É isso, vamos juntas?

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E você? Como foi sua relação com a masturbação? É mais fácil pra você chegar ao orgasmo sozinha ou acompanhada? Como e com que frequência você se masturba?

SexShop Lolla.com.br

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6 comentários

  1. Olá, meu nome é Marcelo e sou apaixonado pelos seus blogs, da qual não deixo nenhum sem ler.
    Acho os assuntos super pertinentes ao nosso modo de vida.
    Tabus são quebrados, medos, incertezas, e esse blog nos ajuda a ver, entender melhor a vida.
    Ou até a nos fazer pensar o que queremos pra nossa vida, sexualidade à flor da pele por aqui.

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  2. isabela diz

    Desde que eu conheci a prática do yoga e logo depois o tantra (aos 16 anos) eu tive uma visão diferente da mastirbação, como algo muito importante. Nunca fui reprimida pelos meus pais ou conceitos até por que meus pais não tinha ideia que eu pudesse me masturbar hahahah

    Mas emfim eu tinha toda a consciência, do que envolvia a masturbação mas eu só fui me masturbar estranhamente depois da minha primeira relação sexual isso aos 19/20 anos. E tem um motivo, satisfação sexual, como a inexperiência fazia com que eu não tivesse orgasmos. então eu passei a sentir vontade de transar mas ao mesmo tempo ter fantasias nas quais naquele momento eu não realizava pelo motivo principal da inexperiência e pelo motivo secundário a conexão, o envolvimento.

    Então minha meditação amorosa (como chamamos no tantra) começou a definir o meu tesão, que não estava direcionado ao meu namorado naquela época, mas nas atitudes e cenários, aventuras que eu queria que tivesse.. e lembro bem de depois buscar essas aventuras.

    Mas eu já sabia o que queria e o processo criativo da masturbação ajudou. Eu não tinha uma freqüência naquela época, mas era dias depois de ter relação e parecia que faltava algo, algo esse que estava na minha cabeça perdida naa linhas fantasias. lembro isso ter durado um tenpo.

    Bom hoje aos 34 anos as coisas mudaram bastante, me masturbo com mais intensidade, mas não com frequentemente e é prolongadaei demoro muito mais pra gozar, por que eu não tenho a “necessidade” é pelo prazer mesmo de curtir e direcionada ao um objeto de desejo, então meio que meu tesão começa e termina no mesmo “objeto” na mesma pessoa e sou bem mais fantasiosa, por que hoje eu me sinto muito a vontade a partilhar as minhas fantasias.

    Eu tenho resistência a objetos externos (vibradores) eu gosto de me tocar com as minhas mãos, eu amo sentir o meu corpo, eu não me atrevo a focalizar só no clitóris. Apesar de já ter experimentado um e outro brinquedinho.

    Eu levei o meu tempo pra aprimorar o conhecimento do meu corpo, hoje eu sou bastante satisfeita, eu não me masturbo como se fosse pra “terminar uma transa” ou pra aliviar alguma tensão, mas quando estou repleta de desejo, ou até mesmo sem querer eu me lembro de alguma transa recente. eu suspiro. Eu tenho tido orgasmos incríveis super diferentes do “convencional” nos seios, na vulva, até no beijo passei a me excitar muito. E tenho mais de 4 orgasmos por transa. ❤

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  3. Pingback: Por que masturbação feminina ainda é tabu? – Dicas Sexo e Relacionamento da Lolla

  4. Victoria Ortiz diz

    Tenho 18 anos e me descobri sexualmente aos 8, quando “brincava de sexo” cm uma amiguinha. Perdi a virgindade bem nova, mas demorei anos pra chegar ao orgasmo e hoje estou com um parceiro que me dá orgasmos múltiplos. Eu me masturbo com frequência, mas ainda sim sinto q eh mecânico, n eh como se eu fizesse amor comigo mesma sabe? Eu nunca assisti pornô, apesar de adorar contos eróticos. Espero que eu consiga me descobrir mais. Pra mim ainda é um grande tabu falar de masturbação, mesmo com meu namorado… Quero ler mais posts sobre o assuntos..

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  5. Pingback: Manual da Masturbação Lesbofeminista | Clitóris Livre

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