Feminismo
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O silêncio do feminismo em torno do funk putaria

Acompanhando a alta de preço das passagens de ônibus Brasil à fora, a tarifa em Belo Horizonte se fixou em R$3,70 desde o começo do ano. Se nunca fui muito chegada a pagar passagem, depois do aumento então…

Quarta feira, por volta das dez da noite, um grupo de quatro meninos ocupavam os bancos da frente do 9101. O mais novo devia ter uns 13 anos, o mais velho uns 21. Boné, sobrancelha feita, pézinho aparado, uns tênis daora. Eles não passariam a roleta, nem eu. Não sei bem como, começamos a conversar. Papo vai, papo vem, revelei ser DJ de rap e funk. Já esperava a reação:

– Você!? Branquinha assim? Não tem cara, parece que gosta de rock (provavelmente por causa das tatuagens, vai saber).

– É, eu sei, todo mundo se espanta, mas ouço funk desde menorzinha – e o papo seguiu.

Falei de alguns incômodos que tinha em relação a certos caminhos que o funk estava tomando, da falta que eu sentia da presença de mais MCs mulheres e da dificuldade de ser mulher e estar em cima de um palco pondo funk pra tocar: ou parecia que eu estava pedindo o conteúdo explícito das letras ou elas eram a mim direcionadas.

Em tom de brincadeira, um deles falou que nunca foi tão fácil pegar mulher na vida. Segundo ele, no baile as minas já chegavam encaixando e eles não precisavam fazer nada. Perguntei: “Meninas a partir de que idade?” Eles: “Ah, a partir de uns doze” Retruquei: “E vocês pegam meninas de 12 anos!?” Ao que eles responderam “Nós não, mas lógico tem quem pegue…”

Isso é uma coisa que sempre me causa incômodo quando vou nos bailes: geralmente uma grande maioria masculina em contraste com uma minoria feminina que querendo ou não (por mais empoderadas e resistentes que elas sejam, não estou negando isso!) muitas vezes se encontram em situação vulnerável. Crianças e adolescentes muito novas que iniciam sua vida sexual em um meio em que os altos falantes gritam, sobre ritmo envolvente e a voz potente do MC, que sexo bom é:

“No pêlo e na pele,
nós tenta pôr camisinha
só que as piranha pede,
no pêlo e na pele…”

“Ah… vou te contar um segredo…
As novinha daqui do baile
Tão tudo sem medo
Senta na pica no pêlo”

“O bonde 7 é sacana
Vai te levar pra treta
Vai mentir pra caralho
Só pra comer sua buceta”

“Virei covarde, virei covarde
a nossa tropa coleciona virgindade”

“Filha da puta mama essa porra
ou bota a mão, ou bota a boca”

“Eu gosto de fumar quando eu tô fudendo
É na onda da maconha que vacilo e jogo dentro
A maconha da Galinha me deixou pensando lento…
Fudeu! Acabei gozando dentro”

“Tem umas mina que é chata
Mas de madrugada chora
Num tem ninguém preu comer
Vou tacar nessa idiota”

Na real, me espanta que tantas feministas façam campanhas massivas contra a pornografia, mas não falem um “A” sobre o funk putaria. Sob um verniz de relativismo cultural, faz-se um verdadeiro silêncio sobre as produções contemporâneas que estão cada dia mais explícitas e violentas.

Você pode falar que isso sempre existiu e que na década de 90 o Tchan tava lá falando que pau que nasce torto nunca se endireita e blablablá. O fato é que se juntar 20 músicas da Cia do Pagode, É o Tchan, Bonde do Tigrão e quem mais você quiser não dá meio MC TH ou MC Magrinho. Nunca a putaria foi tão pesada e na cara. E se isso dá dinheiro, como dá, é óbvio que eles não vão voltar atrás.

Tenho chegado à conclusão de que a internet não é um espaço para a construção de pensamento. Além da imensa dificuldade geral de interpretação de texto, só aceita-se o senso comum, a partir de uma mesma gama de vinte conceitos que só dialogam entre quem pensa igualzinho.

Enfim, se escrevo esse texto, me expondo à todo tipo de crítica, não é por não gostar de funk, mas pelo contrário, por amá-lo e saber que o funk é muito mais que a putaria e a ostentação.

Não desmereço nem um nem outro. Apesar de não concordar pessoalmente com os valores da ostentação, acho-a legítima. Também não é a putaria em si que me incomoda; inclusive, gosto. A questão é que pra fazer putaria, você não precisa ser ou reproduzir discurso violento. 

> O que me coloco contra é essa agressividade exacerbada: o menosprezo, a sexualização precoce, o incentivo à violência e à banalização da mulher. 

A novinha toma doce e balinha, o cara insiste pra que seja na pêlo e na pele, ela muito doida acata, ele fuma um baseado “escorrega e entra”, fica muito doido “e acaba gozando dentro”. A chance de uma gravidez é alta. Quem carrega o filho pro resto da vida sabemos muito bem quem é. Caso a garota decida não ter o filho, sabemos também qual é a camada da população que representa o maior número de óbitos em açougues clínicas clandestinas de aborto.

Outra coisa muito complicada é o fato de que um dos lados da moeda, o masculino, monopoliza o direito de fala, enquanto o outro lado existe apenas para satisfazer seus desejos.

Por quê tão poucas mulheres DJs, MCs, produtoras? Por quê, apesar da presença dessas, os alto falantes dos bailes tocam quase exclusivamente MCs homens, que perpetuam uma mesma visão hegemônica e masculina do que é sexo?

Acho importante refletir isso por quê embora todas as músicas que eu toco no meu set (que sim, também tem putaria) passem por um crivo do bom senso, querendo ou não, quando eu toco uma música do TH na noite (até mesmo uma mais tranquila como “Combinação Perfeita” ou “Dá bença pro papai que o papai é brabo”) estou alimentando um sistema…

Sistema esse coloca meninas muito mais novas que eu em risco de sair do baile grávidas de um cara que pegaram uma noite ou infectadas por doenças sexualmente transmissíveis ou se exporem a ter os cabelos raspados e sofrer outros tipos de agressão por ter mexido com os “caras errados”.

“Nós tem um montão de novinha
Pra todas, nós pede uma prata
Nós dá condição no bagulho
E se der a buceta pra outro nós mata”

Não, essas meninas não sou eu, mas me importo com elas e com toda uma geração que cresce internalizando tais valores.

Vida longa ao funk! Não é por quê se critica que não se gosta;
e não é por quê se gosta que não se pode olhar com pensamento crítico.

Mais que uma campanha contra esse universo, esse post pretende ampliar a discussão sobre o tema, assim como dizer da importância da existência de rodas de conversa, oficinas de produção de beat, discotecagem e rima pras minas!

Mais:

– Se não conhece, procure saber: Valeska Popozuda, Tati Quebra Barraco, Deisy Tigrona, MC Carol, MC Ludmilla, MC Sabrina, MC Marcelly, MC Pocahontas, Mulher Filé, MC Docinho, MC Dandara, MC Mayara – Aliás, pra quem quer conhecer melhor a atuação das mulheres do funk, recomendo o excelente documentário “Sou feia mas tô na moda”, disponível na íntegra no Youtube.

– Leia também “Apesar da ampliação, discurso feminista ainda continua muito restrito à classe média”

– Curta e acompanhe o trabalho DJ Loes

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Este post foi publicado em: Feminismo

por

Jornalista, 26 anos. Uso criativo do pensamento e da palavra.

6 comentários

  1. Adorei esse post sobre o silêncio do feminismo ou da luta da mulher contra o abuso no funk putaria, muito bom mesmo. Esse é um dos pontos que sempre analisei no funk (mesmo não gostando) e algo que é pouquíssimo debatido, irei compartilhar com diversas pessoas, parabéns.

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  2. Marilene diz

    Nunca gostei de letras que transformam sexo em algo nojento ou violento..não adianta colocar uma batida dançante e acabar com o idioma e o que o amor tem de mais bonito e prazeroso ! Nem todos gostam de burrice pra atingir um orgasmo maravilhoso! Musica é para dançar , alegrar, informar e ajudar a construir uma sociedade…a letra de funk idiotiza e acaba com as coisas que mais tocam a alma…pois fazem sexo como seres irracionais…duvido que conheçam o verdadeiro prazer..!!

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  3. Ando pensando há muito tempo nisso!!! Muito boa a reflexão, ainda bem que existem minas que pensam pra frente como vc nesse role

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  4. vlvrvlc diz

    acho que é um tema muito difícil de discutir, pq é muito perigoso cair no moralismo, no preconceito e no racismo. muita gente de fora de movimento social critica o funk como se ele não fosse parte da cultura, fosse um lixo que cresce ao redor da “cultura de verdade” e tal e esquece de olhar para os roqueiros brancos endeusados, por exemplo, que falam muitas coisas parecidas em suas letras e também “pegam” as “novinhas”. então talvez, por esses motivos, muita gente prefira não discutir por medo de acabar caindo nesses esquemas, visto que muitas feministas com visibilidade na internet são brancas e de classe média. não sei, só estou pensando… mas sua análise foi muito boa e esse assunto precisa ser mais discutido sim, a falta de debate e essa certa condescendência já mostra, na real, uma espécie de preconceito velado também, se pá. tudo tem que ser olhado com um pensamento crítico mesmo e obrigada pela reflexão gerada 🙂

    “Tenho chegado à conclusão de que a internet não é um espaço para a construção de pensamento. Além da imensa dificuldade geral de interpretação de texto, só aceita-se o senso comum, a partir de uma mesma gama de vinte conceitos que só dialogam entre quem pensa igualzinho” —- sim

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  5. Particularmente não gosto de funk, ñ pelo ritmo em si, mas por td carga de significado q ele representa. Nunca entendi como uma mulher pode se empoderar e ao mesmo tempo silenciar e corroborar com algo q está sendo massivamente difundido contra ela. Pq a menina ja chegam junto como disse o cara do texto? Pq a musa inspiradora, aquela q foi aprovada pelo cantor ( o ídolo) se comporta da msm forma e é a claro q a novimha quer agradar. Mesmo vc q fez esse texto, q certamente conhece mais letras q eu q ñ retratam a mulher dessa forma, ainda tem no seu set músicas, q de certa, ainda apoiam o padrão normativo. A meu ver é simples, o silêncio existe pq qlq mulher q ñ se comporte como um “depósito de porra” como disse Mc Jackie, vai ser vista como cheia de mimimi, depois vista como a feminista q ñ gosta de homem, ou seja, vira a feminista espantalho- todos os estereótipos negativos de uma feminista. E ao q parece ñ agradar ou mais especificamente, desagradar homens é algo q muita feminista ainda teme.

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