Ano: 2015

Apesar da ampliação, discurso feminista ainda continua muito restrito à classe média

Como já escrevi por aqui antes, muito do meu despertar enquanto feminista (e mais! enquanto mulher) se deu quando comecei a perceber o papel desempenhado por minha mãe dentro de casa e, por ser mulher como ela, reconhecer-me como possuidora de um destino social análogo ao seu. De forma similar, depois de ter me assumido feminista foi novamente observando minha mãe, e o modo como apesar de meu discurso emancipador eu continuava a tratando, permitindo que ela acumulasse praticamente sozinha quase a totalidade das tarefas domésticas da casa, que comecei a questionar a validade desse meu rótulo de feminista e a despertar para a importância urgência de alinhar discurso e prática. Eu acho que você pode falar o que você quiser – ser de esquerda, bradar feminismos, anarquias e revoluções – mas enquanto não for capaz de aplicar na prática, no campo micro, o que você pensa e fala, seu discurso não vale de nada. Foi a partir desse e outros incômodos com o modo como parte da militância vem sendo levada, que escrevi o texto “O feminismo não está acima …

O feminismo não está acima de críticas: Por uma militância que saiba ouvir (e dialogar)

Como outras milhões de mulheres, vibrei quando tive notícias que a prova do ENEM contou com questões que envolviam Simone de Beauvoir, Gloria Evangelina Anzaldúa e a violência contra a mulher. Para mim, foi mais uma confirmação da importância da temática na agenda brasileira, que agora além de pautar discussões nas redes sociais e na grande mídia, passa também a ser considerado conhecimento básico para ingresso nas Universidades públicas do país. Desde o surgimento do Feminismo em meados do século XIX e início do século XX (a dita “Primeira Onda”, em que mulheres de países como Reino Unido, Canadá e Estados Unidos lutavam principalmente pelo direito ao voto) acredito que nunca tantas mulheres se assumiram feministas como nos últimos cinco anos. As redes sociais tiveram um papel preponderante nisso. A profusão intensa de discussões, memes, relatos, textos, blogs (inclusive como esse) falando de temáticas femininas e feministas foi positiva na medida em que ajudou a promover o despertar de uma consciência coletiva da opressão e desse estar no mundo que é ser mulher. Frente à dificuldade …

Guerrilla Girls: um coletivo de mulheres que desde 1985 luta contra a hegemonia masculina no mundo das artes-

“Those who tell the stories rule society.” – Plato As narrativas contam e constroem o mundo. Quem conta a história, conta de um determinado ponto de vista; aumentando a importância de certos personagens, diminuindo e subjugando outros. Por mais que pareça neutro, há diversas relações que sustentam o poder do narrador em contar aquela história segundo seu ponto de vista e consequentemente de modo a garantir e preservar seus interesses e privilégios. Não é atoa que os movimentos de direitos civis, como o feminismo (em suas diversas vertentes) e os movimentos negros e LGBT dão tanta importância ao modo como são representados na arte e na mídia como um todo e se esforçam em reconquistar sua voz e seu poder de construir suas próprias narrativas. Muito dessa consciência da importância da representatividade nas mais diversas narrativas vem de um coletivo de mulheres artistas do meio dos anos 80 em NY. Em 1985 houve um escândalo no mundo das artes de Nova York. Uma exposição no Museum of Modern Art pretendia reunir os nomes mais significativos …

Kunyaza – ou a melhor siririca que você vai receber na vida – a técnica africana voltada para o prazer delas

Ilustração que abre a matéria: Carlo Giovani Kunyaza é uma técnica sexual desenvolvida e praticada principalmente na África Central (em algumas províncias da Ruanda, Congo, no Leste da Uganda e no Leste da Tanzânia) para promover poderosos orgasmos femininos em relações heterosexuais. Naturalmente não há nada que impeça mulheres homossexuais de praticar a técnica, só que como o Kama Sutra indiano, essa técnica foi desenvolvida (ou transmitida) como sendo uma prática entre homens e mulheres. Acredito que casais homossexuais femininos podem praticá-la trocando a glande do pênis pelos dedos ou algum outro objeto de estimulação. As dicas dadas também são preciosas para melhorar a masturbação, já que a técnica foca em alguns pontos principais que se estimulados podem levar sozinha a mulher ao orgasmo. 😉 Wet Sex A palavra Kunyaza, originária dos povos Rundi da Ruanda, é derivada do verbo kunyaàra que significa tanto 1) fazer xixi, quanto 2) o ato da ejaculação feminina decorrente da prática. No Kunyaza, a mulher costuma expelir um litro ou mais de líquidos vaginais, motivo pelo qual o termo pode significar …

Contrai-relaxa! Como o pompoarismo pode transformar a sua vida sexual

Popularizado no Ocidente por sua conotação sexual, o Tantra na verdade é muito mais que isso, constituindo uma milenar e complexa filosofia comportamental de características matriarcais que  tem por objetivo o desenvolvimento integral do ser humano nos seus aspectos físico, mental e espiritual. Dentre os inúmeros aspectos do Tantra, está a sexualidade. Se no Ocidente o corpo e o sexo são considerados frutos do pecado original, resquícios da nossa educação cristã, em grande parte do Oriente o corpo é considerado o templo da alma e, assim, o sexo pode ser um caminho sagrado para atingir a iluminação. “Na medida que a pessoa vai olhando para dentro, reconhecendo seu corpo e sua alma, sua energia, inicia-se um processo de aceitação, fluidez e transformação com a elevação da energia”, explica Antar Surya, coordenadora da Consciência Tântrica e facilitadora de cursos de pompoarismo tântrico. Antar explica que o pompoarismo é uma técnica milenar criada pelas Antigas Sacerdotisas bem antes de Cristo, mas que foi redescoberta, aperfeiçoada e nomeada na India através do Tantra. O Pompoarismo consiste na contração e no relaxamento da musculatura circunvaginal …

Quando apenas maquiar os sintomas com remédios não é o suficiente – A busca pela saúde integral

A “roda da medicina” e o caminho do auto-conhecimento: Curando doenças autoimunes segundo a tradição indígena norte-americana [Nota da tradutora: Há um tempo atrás li esse texto “Healing AutoImmune Diseases the Indigenous Way“, em inglês, que me emocionou muito. Por compactuar com os ideais de auto-conhecimento e saúde integral expressos no relato de Tessa Mychael Sayers, uma americana que foi diagnosticada em 2012 com artrite reumática, síndrome de sjogrens e outros sintomas de lúpus, resolvi traduzi-lo. Se você gostar da história da Tessa e quiser falar com ela, o email dela é tessa.mychael@gmail.com.] O começo Tudo começou em 2008. Olhando pelo lado de fora, eu tinha tudo. Por dentro, eu sabia que havia algo muito errado. Eu estava cansada, inchada, meu corpo reagindo mal aos alimentos que ingeria, irritada, ansiosa, e, muitas vezes deprimida. Médicos ocidentais começaram a me pedir suas baterias de exames. Foi quando eu participei de um workshop sobre medicina naturopata e fiquei encantada com as formas alternativas de cuidados de saúde que me foram apresentadas, técnicas essas as quais agora chamo de …

Enquanto a mãe está na cozinha, a filha escreve sobre feminismo no quarto

Muito do meu descobrimento enquanto feminista se deu por causa da minha mãe, mesmo que ela própria não se afirme enquanto tal, e até mantenha uma certa antipatia pelo termo. Formada em enfermagem, embora nunca tenha exercido, minha mãe se casou com meu pai aos 27 anos, e me teve aos 28, época que ele trabalhava em uma loja de artigos dentários do meu avô. Quando eu tinha 4 anos minha mãe engravidou dos meus dois irmãos gêmeos e desde então tirou a sua vida para se dedicar à casa e à família. Quando eu era já crescida minha mãe decidiu fazer uma outra faculdade, de psicologia, apesar do meu pai nunca ter dado pra ela o devido valor nem incentivo pra que trabalhasse fora, pelo baixo salário que recebe uma pessoa em início de carreira. Ainda que tenha me dado uma educação emancipadora, falando abertamente de drogas e dos direitos (inclusive sexuais) das mulheres e me criando para ser uma mulher forte e independente, meu pai, fruto de uma outra época, sempre manteve uma …

Estamos sexualmente mais livres, mas não necessariamente mais satisfeitas

Vira e mexe alguma amiga compartilha no Facebook uma pesquisa estilo “um a cada três homens tem nojo de perereca/dois a cada três não gostam de fazer oral”, um meme que diz “não finja orgasmo, deixe o cara saber que fode mal”, ou algo do tipo. Por um lado, é um sinal que a mulher está cada vez mais interessada em seu próprio prazer e não está mais apenas disposta a servir, o que é ótimo. Depois de séculos de subjugação, caminhamos enfim para a nossa tão sonhada liberdade sexual. Além do longo histórico de auto-centramento (para não dizer egoísmo) masculino no que diz respeito ao sexo, o que explica em parte o desempenho marromenos que os homens parecem estar apresentando, arrisco outro palpite do por quê em geral as pessoas no geral não estão muito satisfeitas sexualmente. Para construir um bom sexo entre um casal (ou para descobrir suas preferências sexuais ou o que for) é preciso entrega, intimidade, respeito, carinho e amor; é preciso um interesse sincero na outra pessoa e em seu prazer e …

A dificuldade de falar (ou ser levada a sério) sobre vício em Facebook

Fumei meu primeiro filtro branco há uns doze anos atrás; não devia ter nem treze anos na época. Tenho uma relação super gostosa com cigarro: fumo estritamente aqueles que me dão prazer, tipo aquele pra fazer fluir melhor a conversa pós-baseado ou tomando um café depois da sobremesa. Continuo fumando na mesma frequência de quando comecei, um cigarro por dia… ou menos. Passo tranquilamente uma semana, dez dias sem fumar. Nunca viciei. Não é por isso, entretanto, que quando alguém chega perto de mim falando que fuma três maços por dia e que o cigarro atrapalha sua vida, que eu vou minimizar a dor dessa pessoa e falar que “Não, na real ela adora cigarro, cigarro não faz mal algum”… Cada um sabe onde dói seu calo. Ainda assim, toda vez que tenho coragem de desabafar sobre o quanto eu ODEIO o Zuckerberg e sua rede social e o quanto ela me prejudica em estar presente no dia a dia, vem alguém falando que não, que na real eu amo o Facebook e que é por isso gasto tantas horas …

Amor livre ou sexo livre? Sobre amor, relacionamentos abertos e amizade

Para ler ao som de Marriage is for old folks – Nina Simone Por maior que seja o amor entre um casal, mais dia menos dia (sempre) chega o momento em que um dos dois se percebe atraído por uma outra pessoa além do conjugue em questão. Geralmente incompreendido e demonizado por nossas mães e avós como reles “putaria” e “sem vergonhice”, o impulso de beijar ou ter relações sexuais extra-conjugais vem sendo cada dia mais debatido e vivido pelas gerações mais novas. Essa nova forma de relacionamento ganha nomes simpáticos e diversos, tais como “relacionamento aberto”, “amor livre”, “poli-amor”… Mas a situação está longe de ser tão simples ou bem resolvida quanto indicam os termos que a referenciam. Mesmo refletindo sobre a “Ética do tesão na pós modernidade”, conforme ilustrou a genial Katzen Minze/Garota Siririca, em que medida os homens continuam privilegiados nas relações poligâmicas e/ou nos triângulos amorosos? Se nossos avôs já traíam nossas avós, abertamente ou por debaixo dos panos, talvez não haja muito nada de novo nessa história de relacionamento aberto. Uai, mas …