Relacionamentos e Sexualidade
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Como aprender a identificar os sinais de uma cilada e sair fora ANTES de se machucar

“No início é tudo azul, no começo é muito bom!
Ele liga, manda flores, recadinho, até bombom
Diz que tá apaixonado e a gente cai na lábia
Depois que dá uma foda, o filha da puta rala
(É o pente-rala, é o pente-rala! Nós fogueta e mete o pé!)

Não parei, mudei meu jeito, agora tu não reclama!
Quer falar de amor, esquece; mas se quer fuder me chama
Sabe por quê, mulherada? Princípe encantado nada,
Eu aprendi vivendo a vida, que se foda o amor
Eu vou pra putaria!”

– Príncipe Encantado, Mulher Filé

Era cilada e todo mundo sabia. Os sinais estavam ali desde o começo, ou melhor, desde o segundo ou terceiro semana mês, depois de passado aquele período inicial onde todos somos só flerte e delicadeza, mas você estava apaixonada demais pra perceber.

Na verdade, talvez você até tenha notado que tinha alguma coisa estranha naquele comportamento possessivo, agressivo, ciumento ou manipulador dele, mas pra fazer aquele relacionamento dar certo preferiu inventar mil desculpas mirabolantes na sua cabeça para justificar as atitudes violentas e sem caráter do rapaz.

“Todo mundo tem defeito, vai! Ele é uma boa pessoa, eu sei, eu sinto, ele vai mudar, é só uma fase”

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Na medida em que a gente adquire mais idade e experiência – ou seja, na medida em que a gente tem a oportunidade de se relacionar com mais pessoas e quebrar a cara e o coração com todo tipo de gente, personalidades e jeitos de levar a vida – o mito do princípe encantado vai perdendo força.

Ao mesmo tempo em que a gente aprende que não existe ninguém perfeito nesse mundo (muito menos nós!) a gente vai chegando à compreensão que o amor é uma relação de troca e aceitação mútua.

Cada um é de um jeito, cada um busca uma coisa da vida… E nesse mundo tem gosto pra tudo. Uma certa atitude ou aspecto da personalidade de uma pessoa pode parecer completamente abominável para mim, mas pode ser completamente natural e inclusive atraente para minha amiga, sendo inclusive o motivo que fez ela se apaixonar pelo cara em questão.

Por exemplo, o fato de George agradecer Jah Rastafari por cada coisinha que acontece em seu dia pode ser muito irritante pra Bruna, mas representar o cara espiritualizado e fofo que Marina buscava. A independência e as tendências libertárias de Iara eram assustadoras pra Carlos, um cara ciumento pra dedéu, mas foi justamente isso que fez com que Rodrigo se apaixonasse perdidamente por ela.

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Você fez flores crescerem nos meus pulmões e embora elas sejam bonitas, eu não consigo respirar.

Não quero dizer com isso que é impossível se relacionar com pessoas de estilos de vida ou personalidades distintas da nossa. Na verdade, como se diz por aí, muitas vezes os opostos se atraem e até mesmo se completam.

De qualquer forma, e ainda que os conjugues tenham personalidades super-parecidas, entrar em uma relação é se dispor a aprender a conviver com os defeitos e limitações da outra pessoa.

Em primeiro lugar, é preciso ter auto-conhecimento para saber até que ponto você está disposto a ir: o que você consegue aguentar, o que não consegue; o que te cabe e o que não te cabe.

Em segundo lugar, é fundamental estar atento aos sinais para conseguir diferenciar o que é um defeito do que é uma falha de caráter, algo que pode te colocar física, moral ou emocionalmente em risco.

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Amar é: prazer, comprometimento, carinho, sexo consensual, responsabilidade, sentimento de segurança, consideração, decisões conjuntas, tempo com outros amigos, honestidade, abertura, confiança.                                                                                                                                                       Amar não é: dor, obsessão, egoísmo, sexo forçado, irresponsabilidade, isolamento, sentir-se com medo, manipulação, uma pessoa sempre decidir tudo, possessividade, mentiras, inveja, ciúmes.

Em muitos casos de abuso, manipulação e violência doméstica, a mulher está financeiramente presa ao homem em questão e não tem outros meios de sobreviver; ou então seu parceiro ameaça a sua vida e a vida de seus filhos caso ela a deixe. Em outros casos, entretanto, apesar de sofrer repetidamente com o abuso e a violência, e apesar de ter possibilidades de se afastar de seu parceiro-algoz, a mulher continua se subjugando àquele relacionamento.

Não tenho resposta pronta do por quê isso acontece, mas acredito que a educação/sociabilização das mulheres possa nos oferecer algumas pistas. A internalização profunda de certas crenças sobre o papel da mulher nos relacionamentos faz com que muitas vezes elas tenham dificuldade de perceber, ou passem por cima de sua própria intuição e limites, quando certos aspectos tensos da personalidade de seus parceiros vêm à tona e estes lançam mão de práticas violentas e abusivas.

Dentre essas crenças, podemos citar, além do sentimento de culpa, a ideia de que “em um relacionamento, a mulher foi feita para servir, ceder e perdoar / na medida em que envelhece, a mulher corre o risco de ficar sozinha / grande parte da felicidade da mulher reside na existência e “sucesso” de seu relacionamento afetivo-amoroso com algum homem / a felicidade vem do sacrifício / o papel da mulher é de abrir mão de sua própria vida e sonhos em prol da família, marido e filhos” e daí por diante.

Há outros fatores que facilitam o abuso e a permanência da mulher em situação de subjugação: a inocência, a ingenuidade e a inexperiência.

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Combinação perfeita: O mentiroso e a tola.

Assimilar experiências e aguçar a intuição para aprender a se proteger

Com a eclosão dos relatos do #meuamigosecreto, comecei a pensar: Como saber se aqueles aspectos tensos ou irritantes da personalidade do parceiro são apenas defeitos ou na verdade constituem alertas piscantes em vermelho: “Cuidado!!! Perigo!!! Cilada!!! Cai Fora!!!”?

Me lembrei da fábula do “Barba-Azul” narrada no livro “Mulheres que correm com lobos” (Clarissa Pinkola Estes), um estudo que investiga velhas fábulas e contos de fadas que circularam pelos quatro cantos do mundo para compreender arquétipos que lançam luz sobre questões femininas.

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Resumindo por alto, Barba Azul é um homem que chega a uma casa que possui três irmãs, querendo desposar alguma delas. As duas irmãs mais velhas, mais experientes, são repelidas na hora. Depois de um passeio, a mais nova aceita se casar com ele.

Os dois vão morar no castelo do Barba Azul, quando um dia ele fala que vai viajar e entrega o molho de chaves dos diversos quartos do castelo para a jovem esposa com um alerta: ela poderia entrar em todos os quartos, exceto naquele da menor chave.

Como era de se esperar, a jovem esposa busca de quarto em quarto até achar qual é o quarto que pode ser aberto com a chave pequeninha. No que ela acha a porta e abre, se depara com um quarto de horrores, em que residem mortas todas e ensaguentadas todas as ex-jovens esposas do terrível Barba Azul.

Depois de aberto o quarto, a pequena chave não pára de sangrar, apesar de todos os esforços de limpá-la. Quando Barba Azul volta e percebe ter sido descoberto e desobedecido, promete se vingar da jovem esposa entregando-lhe o mesmo destino de suas ex-esposas: a morte. A jovem consegue negociar com seu assassino mais quinze minutos de vida e neste período consegue chamar mentalmente seu pai e irmãos (uma alegoria à reconexão com nosso próprio lado masculino) que chegam no castelo e matam o Barba Azul.

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Pra mim a grande lição desse conto é que apesar dos sinais de perigo (que foram corretamente identificados pelas irmãs mais velhas); pela ingenuidade, a caçula da família se entregou de cabeça a um relacionamento que já anunciava que iria resultar em tragédia. Isso acontece diversas e mais diversas vezes em nossa vida cotidiana.

As decepções amorosas que passamos muitas vezes podem trazer essa lição de que é fundamental estar atenta aos sinais. Resumindo, viu que vai dar merda, que o cara tá se comportando de um jeito meio esquisito, que apresenta tendências ludibriantes, mentirosas ou violentas, não espera a treta acontecer pra chorar depois: CAI FORA.

Relacionamento quer dizer, sim, ceder, compreender o outro… Mas sem passar sobre seus próprios limites! Você tá doida pra viver um relacionamento aberto e o cara vem falar que não admite isso de jeito nenhum; ou, o contrário, você já sabe que não gosta dessa história de amor livre mas sabe que cada dia dorme uma na casa dele, situação que você aceita por quê tá curtindo ele mas te deixa em pedaços. Vale a pena passar sobre suas próprias vontades por causa desse rolo? A resposta, 95% das vezes é… NÃO!

Conheça a si mesma e respeite seus limites. Seja sincera com o que te incomoda, fale! É melhor ser sincera e cortar a erva daninha pela raiz do que esperar ela crescer, invadir a casa, destruir o telhado, etc.

“Mas,
se você não tivesse enterrado
uma faca dentro de mim e ido embora,
como eu teria aprendido que pessoas
não morrem das feridas
causadas por outras pessoas
e sim que as pessoas morrem
quando elas esquecem
que são muito maiores que a dor!”

– Rupi Kaur

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3 comentários

  1. Isabela diz

    Tanta verdade! Tanta poesia! Tanto entendimento, reflexão, observação, sentimento! Mil anos de experiência feminina em um único texto. Não dá pra acreditar que a autora tenha apenas 25 anos. Ou melhor, fico muito feliz em acreditar que ela tenha. Parabéns pela bela lição.

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  2. “Ao mesmo tempo em que a gente aprende que não existe ninguém perfeito nesse mundo (muito menos nós!) a gente vai chegando à compreensão que o amor é uma relação de troca e aceitação mútua”. Essa é a parte do artigo de cunho obrigatório na compreensão do outro. A partir daí, é por conta e risco de ambos.

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  3. andreia diz

    Adorei a poesia do texto, as citações e as imagens são sensacionais. Tudo isso mostra que sua experiência de vida é incrível

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