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O choque de ver Bento Rodrigues ao vivo

Há 25 dias atrás, no dia dia 5 de novembro,  o Brasil testemunhou o maior desastre ambiental de sua história. Uma barragem que continha rejeitos de mais de dez anos de mineração da empresa Samarco (uma filha das gigantes Vale e BHP) rompeu, derramando mais de 62 milhões de litros de lama extremamente tóxica no Rio Doce.

Como lava de vulcão, a lama invadiu em primeiro lugar a cidade de Bento Rodrigues, causando sua imediata destruição. Localizado há 51 km de Mariana, o distrito situa-se no vale (ou seja, na parte mais baixa) de um conjunto de montanhas. A Barragem do Fundão, por sua vez, ficava no cume de uma das montanhas da região, acumulando ali uma imensa energia potencial de destruição.

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Quando a barragem rompeu e aquele volume imenso de lama começou a descer a muitos kilômetros por hora, engolindo tudo que via pela frente, os moradores tiveram cerca de 10 minutos para evacuar a cidade.

As pessoas perderam tudo que tinham. Além dos bens materiais deixados pra trás (e fora a imensa tristeza dos parentes e conterrâneos mortos), os habitantes da pacata vila de 650 habitantes perderam suas memórias e viram ser destruído o lugar em que tinham crescido, local que conheciam cada pedacinho de terra, cada refresco de rio.

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Desde que aconteceu a tragédia aconteceu senti uma necessidade muito grande de ir em Mariana ver a realidade com meus próprios olhos. A oportunidade chegou essa semana com o projeto Narrativas do Vale, que reúne Rafael Lage, Kenny Mendes e Eduardo Marinho.

Partindo de Mariana,  o projeto vai até Vila de Regência, a foz do Rio Doce no Espírito Santo, pretendendo dar voz a quem foi atingido e muitas vezes silenciado em todo esse processo.

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O que vemos na televisão ou mesmo em fotos e vídeos nas redes sociais não é capaz de dar dimensões da tragédia. É o cenário mais desolador que já vi na vida. Tão absurdo, tão pós-apocalíptico que os olhos têm até dificuldade em entender o que realmente se passa.

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As consequências desse terrível desastre ainda não conseguem ser bem dimensionadas. Contrariando as primeiras informações que afirmavam que a lama não era tóxica e nem apresentava metais pesados, na última semana a própria Vale reconheceu a elevada toxicidade daquele grande volume pastoso de rejeitos que depois de ter percorrido e esterelizado toda a extensão do Rio Doce, chegou ao mar no norte do Espírito Santo, atingindo inclusive uma reserva de desova de tartarugas marinhas e afetando muitos outros ecossistemas.

Conflito de Narrativas _ Um outro ponto de vista

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Alguns dias depois do desastre, o governador do estado de Minas Gerais Fernando Pimentel deu uma coletiva de imprensa de dentro da sede da empresa em Mariana. Coube ao bandido tomar conta da cena do crime: Além de controlar quem entrava e quem saía do local do acidente, tendo a oportunidade de maquiá-lo conforme sua vontade, a Vale/Samarco ficaram responsáveis por procurar feridos e colocar os atingidos em hotéis, blindando-os da comunicação com o mundo exterior, inclusive com a imprensa.

Eufemismos como “acidente” foram utilizados pela mídia e pelo governo para designar o crime ambiental cometido. A bem treinada equipe de assessoria de imprensa selecionava a quais veículos seriam concedidas entrevistas, enquanto o setor de Relações Públicas se esforçava em minimizar os danos e construir a narrativa oficial de que sem mineração a cidade de Mariana seria assolada pela pobreza e desemprego e que portanto #SomosTodosSamarco.

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Enquanto isso, e apesar dos efeitos desastrosos da falta de responsabilidade e ética das gigantes mineradoras e da completa incompetência do estado mineiro no licenciamento e fiscalização das obras, o desrespeito e a cara de pau são tamanhos que na última quarta feira (25) foi votado e aprovado o projeto de lei 2946, proposto pelo governador do estado de Minas Gerais Fernando Pimentel (PT), que pretende flexibilizar o licenciamento ambiental no Estado.

O rompimento da barragem, a destruição do rio doce, a completa falta d’água que se estende por mais de uma semana em Governador Valadares foram em maior ou menor medida pauta de toda imprensa nacional e das redes sociais. Na medida em que o tempo passa, entretanto, o assunto vai perdendo espaço e despertando menos interesse.

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Contrariando essa tendência, nasce o Narrativas do Vale. Confira o relato do primeiro dia de visita da equipe à Bento Rodrigues aqui, escrito pelo pensador e multi-artista Eduardo Marinho.

O projeto já começou, sem grana mesmo, mas tá rolando um  financiamento coletivo para custear as despesas básicas. Qualquer ajuda é bem vinda.

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