Feminismo
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O diálogo como ativismo filosófico: Márcia Tiburi lança livro “Como conversar com um fascista”

https://clitorislivre.com.br/2015/10/29/o-feminismo-nao-esta-acima-de-criticas-por-uma-militancia-que-saiba-ouvir-e-dialogar/Pra mim o feminismo faz parte de uma luta maior, que envolve também, por exemplo, a justa distribuição de rendas e terras; o fim do trabalho escravo e da precarização do trabalho; o direito básico à moradia, saúde e educação; o fim da criminalização da pobreza na pretensa “guerra às drogas” que vivemos; a desmilitarização da polícia militar; o fim imediato da gestão criminosa de recursos naturais pelas mineradoras e pelo setor agropecuário; o fim do consumo desenfreado de agrotóxicos e todo tipo de venenos que nos enfiam goela a baixo todos os dias, e daí por diante.

Como uma grande linha emaranhada, percebo que todas as opressões estão relacionadas, e na medida em que se afrouxa um nó, fica mais fácil desatar o outro. Encaro o feminismo como um instrumento de libertação, não um fim em si mesmo. Sou ambiciosa em minhas utopias: desejo muito mais que a libertação feminina, desejo a libertação humana; e por quê não de todos os seres, inclusive de nossa mãe terra, o solo onde se pisa e daonde provém todo alimento.

Cada um tem sua estratégia de combate, mas sinceramente e como já escrevi um pouco aqui, tenho tido cada dia mais preguiça da militância essencialista que para se afirmar precisa diminuir e calar o outro, negando-se ao diálogo. Conversar exclusivamente entre nossos pares é muito fácil.

Ninguém nasce um grande pensador de esquerda e muitas vezes a ficha política de uma pessoa demora anos a cair e quando cai, cai da noite pro dia. Mas mesmo assim, até mesmo pessoas que eram alienadas até anteontem uma vez “iluminadas” passam a tratar como um completo ignorante toda e qualquer pessoa que pense diferente dela.

“Coxinha burro, massa estúpida! Eu que não vou perder meu tempo discutindo com esses ignorantes”: Todo mundo sabe que o problema do brasil é educação mas ninguém se dispõe a educar, ou melhor, ninguém se propõe ao diálogo.

Estava pensando nisso quando me deparei com o texto “Parabéns, atingimos a burrice máxima”, em que Eliane Brum fala da reação estúpida perante a presença de Simone de Beauvoir na prova do ENEM e faz uma breve resenha do novo livro da filósofa Márcia Tiburi, Como conversar com um fascista – reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro (194 páginas, Editora Record).

An anti-Nazi demonstration in Berlin, 1932.

An anti-Nazi demonstration in Berlin, 1932.

Diálogo como resistência

Segundo Brum, uma das perguntas que guia Márcia Tiburi no livro (que ainda não li mas já encomendei) é tentar entender o por quê na sociedade atual dialogar parece impossível.

Para Tiburi, compreender o confronto atual como um confronto entre direita e esquerda, desenvolvimentistas e ecologistas, governistas e oposicionistas, machistas e feministas é uma redução. O confronto atual seria mais profundo e também mais dramático: entre os que pensam e os que não pensam.

Para enfrentar a ausência do pensamento, a filósofa propõe a resistência pelo diálogo. Este é um esforço de cada um – e de todos. Arriscar-se a deixar o “isolamento em comunidade”, a forma atual da vida social e política, manifesta por exemplo na internet e no modo mais amplo como nos relacionamos, para confrontar o que ela chama de “consumismo da linguagem”.

“Não acabaremos com o ódio pregando o amor”, diz Marcia Tiburi. “Mas agindo em nome de um diálogo que não apenas mostre que o ódio é impotente, mas que o torne impotente.”

Em Como conversar com um fascista, Tiburi defende a necessidade de começar a tentar falar de outro modo. O diálogo não como salvação, mas como experimento, como ativismo filosófico para enfrentar a antipolítica.

A política, lembra a autora, “é laço amoroso entre pessoas que podem falar e se escutar não porque sejam iguais, mas porque deixaram de lado suas carapaças de ódio e quebraram o muro de cimento onde suas subjetividades estão enterradas”.

Num país de antipolítica e antieducação generalizada como o Brasil é preciso se mover. É urgente aprender a conversar com um fascista, mesmo que pareça impossível. Expor ao outro aquele que não suporta a diferença. Revelar suas contradições e confrontá-lo pelo diálogo é um ato de resistência. Enfrentar a burrice com a única arma que ela teme: o pensamento.

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Quando eu passei pela porta e pelo portão que me levariam à minha liberdade, eu sabia que se não deixasse minha amargura e meu ódio para trás, eu ainda estaria na prisão.

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Este post foi publicado em: Feminismo

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Jornalista, 26 anos. Uso criativo do pensamento e da palavra.

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