Feminismo
Comentários 3

Apesar da ampliação, discurso feminista ainda continua muito restrito à classe média

Como já escrevi por aqui antes, muito do meu despertar enquanto feminista (e mais! enquanto mulher) se deu quando comecei a perceber o papel desempenhado por minha mãe dentro de casa e, por ser mulher como ela, reconhecer-me como possuidora de um destino social análogo ao seu.

De forma similar, depois de ter me assumido feminista foi novamente observando minha mãe, e o modo como apesar de meu discurso emancipador eu continuava a tratando, permitindo que ela acumulasse praticamente sozinha quase a totalidade das tarefas domésticas da casa, que comecei a questionar a validade desse meu rótulo de feminista e a despertar para a importância urgência de alinhar discurso e prática.

Eu acho que você pode falar o que você quiser – ser de esquerda, bradar feminismos, anarquias e revoluções – mas enquanto não for capaz de aplicar na prática, no campo micro, o que você pensa e fala, seu discurso não vale de nada.

tumblr_n9nbjv3iA71s5h4bpo1_500

Foi a partir desse e outros incômodos com o modo como parte da militância vem sendo levada, que escrevi o texto “O feminismo não está acima de críticas: Por uma militância que saiba ouvir (e dialogar)”.

Tal qual minha mãe aguenta um dobrado no lombo e não se identifica diretamente com a teoria feminista, acredito que uma boa parte das grandes feministas da vida real estão na periferia e nunca tiveram o menor contato com ideias ou teorias feministas e nem se declaram como tal.

Algumas são mães solteiras e se dividem em dois ou mais empregos pra dar conta de criar seus filhos; outras enfrentam os pais, vizinhos e pastores das mil igrejas evangélicas espalhadas pelas ruas da favela para ir curtir, de shortinho curto e cabelo alisado, os bailes funk que varam madrugada à dentro. E isso também é resistência, apesar de não raro ser superficialmente lido como mera submissão e alienação por muitas feministas de classe média (quando não excessivamente glamourizado).

“Vem, desce comigo a ladeira, atravessando a trincheira, entre o crime e a biqueira, bola de lama e frieira, venha ver o que empurrou pros meus… Comunidade lotada, hoje tem sol não tem água, tem pancadão na calçada, a multidão revoltada em mais um crime que aconteceu…”

11012976_492640670902799_2207295369974074323_n

Foto: Ike Bittencourt

Até onde minha vista alcança, algo próximo à ideia de sororidade tal qual é vendida na internet existe entre as mulheres negras que assumiram seus cabelos e traços, e se reconhecem como pertencentes a uma mesma identidade.

Entre mulheres brancas e mulheres negras sinceramente ainda não vejo a tal sororidade. As pautas do feminismo branco e do feminismo negro são bem distintas, e talvez isso possa ser explicado se olharmos para as gerações passadas das avós de umas e outras: enquanto umas serviam, outras eram servidas.

Como a Djamila Ribeiro escreveu, na maioria das vezes as hashtags não chegam para as mulheres que mais sofrem com a violência doméstica, estatal, prisional e constituem o maior número de vítimas de estupros e mortes decorrentes de abortos clandestinos.

Mais do que afirmar uma distância intrínseca, entretanto, me interessa saber como o feminismo vai conseguir ampliar suas fronteiras e conversar com quem está longe das redes sociais e ainda mais longe da teoria acadêmica.

tumblr_n9nbjv3iA71s5h4bpo7_500

Anúncios
Este post foi publicado em: Feminismo

por

Jornalista, 26 anos. Uso criativo do pensamento e da palavra.

3 comentários

  1. Pingback: O silêncio do feminismo em torno do funk putaria | Clitóris Livre

  2. Pingback: O silêncio do feminismo em torno do funk putaria | Além da Mídia

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s