Feminismo
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O feminismo não está acima de críticas: Por uma militância que saiba ouvir (e dialogar)

Como outras milhões de mulheres, vibrei quando tive notícias que a prova do ENEM contou com questões que envolviam Simone de Beauvoir, Gloria Evangelina Anzaldúa e a violência contra a mulher.

Para mim, foi mais uma confirmação da importância da temática na agenda brasileira, que agora além de pautar discussões nas redes sociais e na grande mídia, passa também a ser considerado conhecimento básico para ingresso nas Universidades públicas do país.

Desde o surgimento do Feminismo em meados do século XIX e início do século XX (a dita “Primeira Onda”, em que mulheres de países como Reino Unido, Canadá e Estados Unidos lutavam principalmente pelo direito ao voto) acredito que nunca tantas mulheres se assumiram feministas como nos últimos cinco anos.

As redes sociais tiveram um papel preponderante nisso. A profusão intensa de discussões, memes, relatos, textos, blogs (inclusive como esse) falando de temáticas femininas e feministas foi positiva na medida em que ajudou a promover o despertar de uma consciência coletiva da opressão e desse estar no mundo que é ser mulher.

Frente à dificuldade de denúncia de assédios e violência contra a mulher, a adesão à campanhas como #PrimeiroAssedio, lançada pelo Think Olga em resposta aos comentários que sexualizavam uma criança de 12 anos participante de um reality show, e #VamosFazerUmEscândalo da videologger Jout Jout, são provas de que a internet pode sim ser um instrumento de alerta e denúncia e constituir uma rede de solidariedade e proteção contra práticas abusivas tão naturalizadas em nossa sociedade.

Feminismo de internet, sororidade seletiva e o perigo de morrer na praia no campo do discurso

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Lei da ação e reação: toda ação em sentido progressista gera uma reação conservadora. Ao mesmo tempo que empodera as mulheres, o advento do feminismo desperta uma sensação geral de desconforto nos homens, que, sensíveis como são, reagem de formas diversas: uns afirmando sua bondade intrínseca e querendo estrelinha no caderno por serem bons meninos, outros com deboche, outros ainda com negação da validade das pautas feministas e acusações de exagero, outros com violência e assim por diante.

Talvez por quê já tenhamos que lidar o tempo todo com críticas masculinas em relação ao feminismo, e para não dar mais munição ao “inimigo”, nós mulheres muitas vezes fechamos os olhos às fragilidades e fissuras do movimento, fingindo que está tudo bem e tudo lindo. Não, não está.

Como a internet se guia por manchetes, não sabe interpretar textos e rechaça qualquer forma de pensamento divergente, é importante ressaltar que eu não virei estúpida do dia pra noite, nem deixei de reconhecer e me levantar contra as inúmeras opressões a que mulheres são submetidas a cada segundo.

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Apesar de ficar feliz com as reverberações positivas da militância (como as descritas acima e às quais eu poderia somar outros mil items), nos últimos meses eu comecei a ficar com cada dia mais preguiça do assunto e do modo absoluto e incontestável como ele é tratado na rede.

Comecei a repensar até mesmo se queria continuar me identificando enquanto feminista; no quanto esse termo muitas vezes cria uma barreira de comunicação entre mim e as pessoas, e no quanto a “sororidade” ainda existe mais no plano das ideias do que na realidade, ou pelo menos o quanto é frágil: um delicado cristal que se quebra na primeira ameaça de uma mina beijar o paquerinha da outra.

É muito fácil louvar o sagrado feminino, chamar todo mundo de miga e mana na internet… Quando na verdade a competitividade entre as mulheres ainda segue a mil, você continua chamando a mina que tá pegando seu ex de piranha, negando as pautas levantadas pelas mulheres negras e tendo medinho de dividir banheiro com travesti.

Na virtualidade existimos segundo as melhores versões de nós mesmos, construídas de acordo com aquilo que queremos mostrar ao mundo que somos, e não necessariamente de acordo com nossas práticas.

À uma distância segura, é muito fácil ter sororidade. Textos e relatos podem até ajudar no despertar de uma sensibilização em relação à vivência da outra… Acredito, entretanto, que a empatia real se desperta na prática, na vivência lado a lado.

Homens não são, necessariamente, estupradores… nem inimigos

Da mesma forma como “Ninguém nasce mulher, torna-se”, também há toda uma construção social em torno do que significa ser homem. Acho engraçado como militâncias que se esforçam em negar e ultrapassar os essencialismos aos quais foram reduzidas por séculos, podem ter tanta facilidade em fechar seu antigo algoz em caixas pré-determinadas.

Deixa eu contar um segredo? Por mais que o diálogo seja chato e difícil, por mais que os homens se façam de surdos e burros, por mais que nós não tenhamos a obrigação de sermos didáticas, etc, etc, etc… Muitas mulheres continuarão se relacionando afetiva e sexualmente com homens, e muitos homens continuarão nascendo nas maternidades.

Eu sei que o Google existe e que você não tem a obrigação de ser professorinha de ninguém, mas enquanto houver essa barreira para o diálogo, até mesmo com aqueles homens que se dispõem (de sua maneira torta, muitas vezes) a perguntar e a escutar, ou seja, a tentar aprender, acredito que muito pouco progresso será conquistado.

Observando lugares de fala e respeitando obviamente o protagonismo das lutas, assim como não é preciso ser negro para se indignar e lutar contra o genocídio da juventude negra; não é preciso ser mulher para apoiar a luta contra a pedofilia, o estupro e o feminicídio, por exemplo.

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Se declarar feminista não te faz melhor do que ninguém
– O que muda o mundo é seu exemplo, não sua opinião –

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//Muito do impulso de escrever esse texto veio do artigo anônimo “Por quê não sou anarquista” publicado há alguns dias atrás a Rede de Informações Anarquistas. O excelente texto pode ser lido na íntegra aqui.

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Este post foi publicado em: Feminismo

por

Jornalista, 26 anos. Uso criativo do pensamento e da palavra.

8 comentários

  1. Barata diz

    Olá

    Gostei muito do texto, no sentido de que combate o sectarismo das lutas. Combate também o dogmatismo que constante transformam a luta política em uma questão de fé.

    Precisamos criticar tudo. Tudo mesmo. Desde de que a crítica seja racional e honesta intelectualmente. Logo, se me permite, gostaria de fazer uma crítica construtiva ao texto.

    Eu acrescentaria uma crítica ao movimento feminsta, a que em considero ser a mais essencial. Raramente vemos os grupos feministas realizarem um esforço em identificar a raiz histórica do patriarcado e, consequentemente, os meios radicais de abolição deste.

    Talvez isso se deva ao fato do movimento feminista ter se originado de setores da classe média, que possuem pouca senssibilidade para questionar a exploração humana de maneira geral. Por exemplo, os primeiros movimentos feministas nos EUA eram formados marjoritariamente por mulheres brancas, que questionavam a falta de participação das mulheres no mercado de trabalho, posição sempre ocupada pelas mulheres negras e/ou de famílias pobres.

    Logo, o movimento feminista constantemente se afasta do terreno da luta de classes para ser absolvidos pela simples luta por direitos no interior de uma sociedade que se sustenta na exploração do trabalho humano.

    Meu comentário também está aberto a críticas. Obrigado pelo espaço.

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