Mulher na Arte
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Guerrilla Girls: um coletivo de mulheres que desde 1985 luta contra a hegemonia masculina no mundo das artes-

“Those who tell the stories rule society.”
– Plato

As narrativas contam e constroem o mundo. Quem conta a história, conta de um determinado ponto de vista; aumentando a importância de certos personagens, diminuindo e subjugando outros.

Por mais que pareça neutro, há diversas relações que sustentam o poder do narrador em contar aquela história segundo seu ponto de vista e consequentemente de modo a garantir e preservar seus interesses e privilégios.

Não é atoa que os movimentos de direitos civis, como o feminismo (em suas diversas vertentes) e os movimentos negros e LGBT dão tanta importância ao modo como são representados na arte e na mídia como um todo e se esforçam em reconquistar sua voz e seu poder de construir suas próprias narrativas.

Muito dessa consciência da importância da representatividade nas mais diversas narrativas vem de um coletivo de mulheres artistas do meio dos anos 80 em NY.

Em 1985 houve um escândalo no mundo das artes de Nova York. Uma exposição no Museum of Modern Art pretendia reunir os nomes mais significativos da arte contemporânea da época. Entretanto, dos 169 artistas selecionados, apenas 13 eram mulheres.

Nada de novo sobre o sol, mas foi a gota d’água para eclosão das Guerrilla Girls, um coletivo de artistas femininas residentes na Big Apple que resolveram se levantar contra a supremacia masculina na curadoria e produção de arte como um todo.

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Anonimamente, munidas de máscaras de gorilas, cartazes e adesivos auto-colantes com conteúdo bélico, humor ácido e doses maciças de informação, as Guerrillas Girls saíram pela cidade de Nova York criticando a conduta do museu, assim como a desigualdade de oportunidades e salários marcada por questões de gênero no ambiente das artes plásticas.

Um dos lambes mais famosos confeccionados pelo grupo (colado na cidade de NY a partir de 1989) contava com colagem de uma odalisca clássica com uma cabeça de gorila seguida pela provocação:

“As mulheres precisam estar peladas para entrar no Met. Museum?
Menos de 3% dos artistas nas sessões de arte moderna são mulheres,
mas 83% dos nus são femininos.”

Outro cartaz da década de 80 que ficou famoso foi
As vantagens de ser uma artista mulher:
– Trabalhar sem a pressão do sucesso;
– Não ter que estar em exposições com homens;
– Ter uma escapatória do mundo da arte em seus 4 empregos free-lances;
– Saber que sua carreira pode deslanchar depois que você tiver 80 anos;
– Estar segura de que qualquer tipo de arte que você fizer vai ficar rotulada como “feminina”;
– Ver suas ideias viverem no trabalho de outros;
– Ter a oportunidade de escolher entre carreira e maternidade;
– Ter mais tempo pra trabalhar quando seu parceiro te trocar por uma mulher mais nova;
– Ser incluída em versões revisadas de livros de história da arte;
– Não ter que enfrentar o embaraço de ser chamado de gênio;
– Ter seu retrato nas revistas de arte usando uma fantasia de gorila.”

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Trinta anos se passaram desde o surgimento das Guerrillas Girls, e apesar das melhoras conquistadas pelas mulheres no campo das artes (algumas mulheres artistas ganharam mais visibilidade de lá pra cá e começaram a ter suas obras melhor avaliada$) e nas demais esferas da vida como um todo, ainda não é tempo de aposentar o ativismo e as máscaras de macaco.

Em uma pesquisa realizada pelo coletivo em 2011, apenas 4% dos artistas nas sessões de arte moderna e contemporânea eram mulheres, enquanto 76% dos nus eram femininos. Menos mulheres artistas, mais nus masculinos.

Será que já podemos considerar isso um progresso ou continuamos vivendo mais ou menos a mesma penúria?

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Adesivo auto-colante que compara a quantidade de exposições individuais de artistas mulheres nos principais museus do mundo, em 1985 e hoje, em 2015. Pouca coisa mudou.

Pluralidade de vozes

Desde 1985 até hoje, o grupo já contou com diferentes membros. “Muitas mulheres fantásticas estiveram dentro e fora do grupo, umas por uma semana, outras por mais de uma década. Nós sempre fomos um grupo de artistas com personalidades fortes.”

Em 30 anos de existência do coletivo, as Guerrillas Girls tiveram seus altos e baixos enquanto grupo, mas sua agenda contra discriminação apenas se expandiu e intensificou, começando a focar também no suporte de representação igualitária de artistas queer e negros.

Aliás, em relação aos artistas trans, elas indicam a pesquisa de: Claude Cahun, Rosa Bonheur, Billy Tipton e Gladys Bentley.

“Você não pode escrever uma história da cultura a partir de um ponto de vista único, sem dar chance à pluralidade das vozes. Nenhum curador ou negociante de arte hoje em dia quer ser considerado um neandertal por não exibir obras de arte de artistas femininas, orientais ou negros, por exemplo. Mas o mundo comercial da arte continua sendo um lixo. Tirando algumas poucas exceções, homens brancos ainda retém a maior parte do dinheiro e com certeza a maior parte das oportunidades”, afirmam representantes do coletivo em uma entrevista para Interview Magazine, que convidou 21 artistas mulheres para fazerem perguntas ao grupo.

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Perguntadas por Yoko Ono se não seria melhor atuar sem as máscaras elas responderam “Nós adoraríamos tirar nossas máscaras, mas será que alguém nos escutaria sem elas? Descobrimos que no mundo da arte feministas são levadas mais a sério quando elas usam humor e uma fantasia de gorila. É patético! Costumamos pensar nisso como a nossa masculinidade.”

Além disso, as máscaras servem para desviar as atenções das artistas/ativistas para a problemática da discriminação e, também, para garantir um certo anonimato protetor às Guerrilla Girls. Artistas na “vida real”, as mulheres que apontam o dedo aos museus pela falta de projecção dada ao trabalho feminino têm assim a garantia de que não sofrerão represálias.

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Atualmente, mais do que simples instrumentos de luta, os lambes e peças produzidos pelas Guerrillas Girls viraram também peças de museu, ilustrando a vertente feminista da arte política. Sobre o feminismo, as guerrillas girls afirmaram à Interview:

“Sempre foi dois passos pra frente, um passo pra trás, mas o feminismo vem mudando a vida de mulheres ao redor do globo, muito devagar em alguns lugares e bem significativamente em outros. Até os países mais repressores tem movimentos feministas, em que bravas mulheres muitas vezes trabalham secretamente. Aliás, nós achamos ridículo que tantas mulheres americanas que acreditam nas bases do feminismo, como pagamento igualitário pelo desenvolvimento do mesmo trabalho, libertação de exploração e abuso sexual, direito à educação, controle próprio da própria vida reprodutiva, etc, tenham sofrido lavagem cerebral pelos estereótipos negativos da mídia e sociedade e se recusem a se chamarem de feministas.”

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