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Quando apenas maquiar os sintomas com remédios não é o suficiente – A busca pela saúde integral

A “roda da medicina” e o caminho do auto-conhecimento:
Curando doenças autoimunes segundo a tradição indígena norte-americana

[Nota da tradutora: Há um tempo atrás li esse texto “Healing AutoImmune Diseases the Indigenous Way“, em inglês, que me emocionou muito. Por compactuar com os ideais de auto-conhecimento e saúde integral expressos no relato de Tessa Mychael Sayers, uma americana que foi diagnosticada em 2012 com artrite reumática, síndrome de sjogrens e outros sintomas de lúpus, resolvi traduzi-lo. Se você gostar da história da Tessa e quiser falar com ela, o email dela é tessa.mychael@gmail.com.]

O começo

Tudo começou em 2008. Olhando pelo lado de fora, eu tinha tudo. Por dentro, eu sabia que havia algo muito errado. Eu estava cansada, inchada, meu corpo reagindo mal aos alimentos que ingeria, irritada, ansiosa, e, muitas vezes deprimida. Médicos ocidentais começaram a me pedir suas baterias de exames. Foi quando eu participei de um workshop sobre medicina naturopata e fiquei encantada com as formas alternativas de cuidados de saúde que me foram apresentadas, técnicas essas as quais agora chamo de maneiras indígenas de cura.

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Depois dessa experiência, resolvi mudar de vida. Mudei completamente minha dieta e comecei um tratamento um médico neuropata. Muitos dos sintomas melhoraram com alguns meses de tratamento, mas eu sabia que ainda havia alguma coisa que não estava certa.

Uma semana depois do meu aniversário de 30 anos, ocasião em que me permiti comer compulsivamente, eu tive uma piora e percebi que meu problema misterioso era cíclico e se relacionava com as comidas que eu ingeria, com meus padrões de sono e acima de tudo, com minha saúde emocional.

Um mês depois fui diagnosticada com três doenças auto-imunes. Eu fiquei arrasada.

“It’s My Party and I’ll Cry If I Want To”

Em casos de saúde, a internet pode ser seu melhor amigo ou seu pior inimigo. Pra mim foi o portão para o inferno. Nos fóruns de discussão, portadores de doenças auto-imunes conversavam sobre a queda de seus dentes e cabelos, e em casos mais extremos, de complicações que acabavam em morte. A maioria dos diagnosticados tinham mais de 45 anos, e lá estava eu, no auge dos meus 30 anos, acreditando que era o fim de todos meus sonhos.

Então o que eu fiz? Eu dei uma festa, convite para um. Se foi uma festa de choro? Você pode apostar! Eu chorei todos os dias – geralmente trancada no corredor do meu closet para que minha colega de quarto não me ouvisse. E se minha doença ficasse tão terrível que eu ficasse impossibilitada de fazer arte, e se eu tivesse que largar meu emprego quando a fadiga da doença se tornasse insuportável? Quem iria querer casar comigo assim? Será que eu estava morrendo aos poucos?

Uma doença auto-imune acontece quando seu corpo fica confuso e começa a atacar ele mesmo, não só os corpos invasores, mas também os tecidos e órgãos saudáveis. Meu corpo estava tão reativo que tinha dias que eu não conseguia nem colocar nada de comida pra dentro. Eu ia para a cama com fome; em outros dias eu simplesmente estava cansada demais pra me importar.

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Rompimentos

Não, eu não levei um fora do meu namorado. Ele na verdade na época como que pegou um segundo emprego de meu enfermeiro particular, ainda que eu por muitas vezes eu tivesse tentado fazer com que ele me abandonasse. A comida rompeu comigo. Eu fui instruída a cortar laticínios, gluten, milho, soja, grãos, açúcar, café, e depois de um tempo, até mesmo as frutas. Era mais fácil falar às pessoas o que eu estava autorizada a comer. Esse término com a comida foi muito difícil pra mim… Era como ter de ver, por três vezes ao dia, um ex-namorado que ainda me fazia muito mal.

Eu me isolei porquê acreditava não poder viver como outras pessoas da minha idade. Eu estava deprimida por causa desse rompimento com a comida. A doença estava me causando estragos, internos e externos. Me olhar no espelho passou a constituir um doloroso ritual – eu o fazia apenas para estar minimamente apresentável. Meu cabelo começou a cair, e ficar mais fino, e isso me incomodava mais do que qualquer outro aspecto da doença.

Uma noite meu namorado me achou chorando no chão, segurando uma mecha de cabelo que havia caído da cabeça. Eu olhei pra ele e disse: “Por quê você me ama? Aqui não há mais nada de bonito para se amar” Sem hesitar ele disse “Eu te amo pela pessoa que você é por dentro, e eu ainda acho que você é linda”. Foi então que eu percebi que eu própria não me amava. Eu não sabia como aceitar as coisas que eu queria mudar em mim. Aos poucos entendi que minha doença estava diretamente ligada à forma como eu me relacionava comigo mesma… e que esse aspecto da minha vida carecia de uma verdadeira revolução.

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Roda da Medicina

Eu estava determinada a melhorar. Eu sempre fui uma pessoa determinada e um pouco teimosa, o que ironicamente era parte do meu problema. Minha maior força era também minha maior fraqueza. Eu me recusava a tomar qualquer medicamento alopático, o que deixava as pessoas nervosas, mas eu sabia que a cura não iria se manifestar através do silenciamento dos sintomas. Meu corpo gritava pra mim, e agora eu estava pronta para escutar.

No começo eu achei que eu poderia melhorar meu estado de saúde através de uma dieta balanceada, exercício e sono regular, entretanto, meu progresso depois de um tempo estancou. Eu fui levada então à Roda de Medicina dos Índios Norte-Americanos que leva em consideração os aspectos físicos, emocionais, mentais e espirituais de nossas vidas. Eu estava evitando perceber os aspectos emocionais da minha vida, por quê sejamos honestos, é muito doloroso. Quem quer penetrar aqueles lugares escuros da alma que a gente tenta com tanta força controlar, ignorar ou cobrir com substâncias?

Meu espírito disse: “Dieta e exercício não são suficientes, vamos descer lá embaixo, onde é escuro. Você tem que ir Teresa, eu sei que você está com medo, mas você tem que ir.” E eu fui lá, nesse lugar escuro dentro de mim, muitas vezes. Traumas e emoções que eu nunca soube que existiam magicamente apareceram durante esse trabalho interno. Eu não conseguia acreditar que coisas daquele tipo haviam sido presas nas paredes do meu corpo por tanto tempo. Por muitas vezes eu chorei com muita força, eu simplesmente sabia que eu estava  me desprendendo de coisas profundas, que agora enfim começavam a ser liberadas.

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Minha vida melhorou drasticamente desde que eu parei de me esconder no corredor do closet para chorar. Por mais que viver com uma doença auto-imune seja difícil, ela trouxe muitas bençãos para minha vida. Eu acredito no poder da medicina neuropata e do tratamento holístico. A roda da medicina passou a ser a base através da qual eu continuei me explorando e percebendo vários aspectos em mim que precisavam de atenção. Fortaleci meu corpo através de dieta, sono, hidratação e exercício. Para equilibrar meu campo emocional usei a escrita, música, poesia, arte-terapia e yoga.

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Mentalmente, eu continuei desafiando os sistemas de crença que estavam profundamente enraizados em mim, os trocando por crenças que estavam alinhadas com meu verdadeiro eu. No âmbito espiritual, comecei a me esforçar em criar um santuário interno, onde eu rezava ao Criador, meditava, colocava intenções e expressava minha gratidão diária.

Eu não tomo nenhum medicamento e acredito fortemente no poder de curar minha doença através de práticas preventivas e meios naturais. Eu como comida orgânica e uso maquiagem orgânica. E sim, é caro. Qualquer possível excedente que eu tenha, vai embora nisso. Se eu preferia estar gastando com viagens e roupas novas? Sim, mas meu orçamento é apertado, e isso acontece porquê eu fiz uma escolha consciente de colocar meu bem estar em primeiro lugar.

Eu adotei os conceitos de deixar ir, aceitar, confiar e perdoar. Eu ainda tenho dias difíceis, e às vezes eu choro. Eu sou humana, e estou aprendendo que não preciso ser perfeita. Acredito que na medida em que eu for me trabalhando fisica, emocional, espiritual e mentalmente, minha doença vai aos poucos se tornando uma coisa do passado.

Tem dias que eu não me sinto bem, o que significa que eu preciso examinar o mundo ao meu redor e dentro de mim, e descobrir o que precisa ser nutrido, o que precisa de atenção. Entretanto, eu tenho mais dias que eu me sinto incrível e grata do que dias tristes desde que eu comecei essa trilha do auto-conhecimento. Hoje eu me amo muito mais do que eu costumava há 7 anos atrás.

Você também pode se curar

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Mudanças no estilo de vida e em nossa consciência como um todo muitas vezes são difíceis porquê nos fazem explorar nossas cavernas interiores onde estão guardadas feridas, que muitas vezes vêm desde a infância. Acredita-se que os sistemas de crenças são formados até os 7 anos, e são reforçadas pelo ambiente que nos rodeia a partir de então. As emoções são energia, e a energia não pode ser destruída.

Sentimentos negativos são recalcados e se escondem, envenenando os nossos corpos, criando estresse e doenças, e tornando as pessoas infelizes. Até você dedicar tempo para explorar o trauma, ele vai mantê-lo refém. É preciso muita coragem para olhar para dentro. Estenda a mão para receber ajuda e cerque-se com aqueles que vão incentivá-lo a seguir o seu próprio caminho.

Nossa sociedade costuma buscar respostas e validações externas para vazios interiores. As respostas sempre estão dentro. Quando você tira o tempo para se amar e curar, não está dando somente a você esse incrível presente, mas também às pessoas a seu redor. Se você se perguntar as questões certas, você vai achar as respostas e a força de vontade em voltar a ser sua verdadeira essência. O caminho de auto-conhecimento não tem fim. Você nunca será perfeito. Mas te prometo que você será mais feliz, mais saudável e mais amoroso do que você nunca imaginou que fosse possível.

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Este post foi publicado em: bem estar

por

Jornalista, 26 anos. Uso criativo do pensamento e da palavra.

3 comentários

  1. Ester Ramires diz

    Todos os dias quando eu acordo eu ne sinto um lixo. Vontade de chorar,de acabar lago com isso sabe? Com minha vida sem propósito. Eu nao sei oq acontece. Acho q foi a vivência num ambiente hostil e vulnerável. Isso em deixou totalmente debilitada emocionalmente. N por falta de amor ou carinho. Minha mãe me ama. Meu namorado me ama,me acha linda, mas eu contínuo me achando um ser humano horrível tanto fisicamente quanto psicologicamente.
    Tenho medo doq se esconde dentro de mim. Do porque que eu me sinto assim todos os dias. Medo até de me prejudicar. E tenho mais medo ainda porq esse medo está diminuindo cada vez mais. E a ideia de terminar logo c minha vida martelando a cada dia mais forte na minha cabeça.
    Sei q meu comentário é miserável aos pés desse relato. Só nao tenho com quem falar,pra quem falar. A nossa sociedade de hj tratam esses problemas como frescuras adolescentes. So q eu nao quero ser mais uma adolescente “frescurenta” q tirou sua própria vida por não suportar mais. E nem saber o motivo de tanto sufoco e agonia.
    Tenho medo de me auto-conhecer. Preciso de ajuda. De compreensão. N quero morrer sozinha. N viver uma vida de morte.

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    • Querida Ester, o mundo é uma merda, é hostil, podemos não identificar bem o que nos agride diariamente, mas é realmente muito brutal. As pessoas que são mais sensíveis percebem isso com mais clareza e as vezes, com mais violência também. Ser mulher em uma sociedade brutalmente machista já é algo complexo e duro, ser jovem nesta mesma sociedade, que não valoriza as ideias libertárias e a criatividade da juventude, tão pouco é fácil. Saiba que você e milhares de jovens passam por situações semelhantes, sou professor universitário e convivo com os jovens diariamente, tenho muito interesse em ouvi-los em olhá-los e, acima de tudo, respeitá-los. Vejo muitos com problemas e passando por situações das mais perversas possíveis, saiba que não estás sozinha, não pense na morte, pelos menos nestes momentos de angústia, é muito complexo e difícil fazer uma avaliação sobre este acontecimento que de fato nos espera. Acho que a busca por se autoconhecer é fundamental. Eu já pensei em tirar a minha vida também, foi numa situação muito específica e também sobre efeito do álcool, mas depois repensei e preferi enfrentá-la, decidi encarar as merdas que tenho dentro de mim, os sentimentos egoístas que manifesto e, tentar, enfrentar as agressividades do mundo. Deste mesmo mundo que me criou e de onde construí, a partir de experiencias vividas, os piores sentimentos que tenho em mim, porém tendo (muitas vezes de forma frustrada) desconstruí-los diariamente. Na verdade dói muito, mas quando a dor é enfrentada, nos sentimos mais livres, capazes e felizes (avaliação pessoal). Claro que somos diferentes e que precisamos conversar e conhecer a experiências de outras pessoas, isso vai te fazer bem. Talvez seus familiares ou seu namorado, neste momento, não sejam as melhores pessoas. Tente buscar algum novo grupo de pessoas, novos espaços, cursos, reuniões, coletivos estudantis, organização política, social, grupos de feministas, etc, ou também, se tiver, busque amigxs, porém devem ser os mais próximos, se não acho que é melhor buscar novos espaços. O que também está me ajudando muito é a terapia que faço semanalmente, se achar legal busque uma também, pode te fazer bem…enfim, não sei…tentei escrever algo, nem havia terminado de ler o texto, mas vi o seu comentário, fiquei angustiado e decidi escrever, pode estar confuso, mas tentei me conectar com você. Não sei se ajudou, mas saiba, você NÃO está sozinha, somos muitos que estamos sofrendo, enlouquecendo, mas não podemos deixar que as merdas deste mundo, onde muitas são mantidas por pessoas de merda, nos abale neste nível, somos maiores que isso, pode ter certeza. Sinta-se fortemente abraçada. Eduardo

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  2. Letícia diz

    Carrego o transtorno de personalidade Borderline, o que me faz ter que lidar com uma visão de mundo completamente compulsiva e ansiosa todos os dias da minha vida, e não há fluoxetina que ajude. Não consigo focar em nada ou me sentir produtiva em hora alguma. Também sinto que o transtorno me rotula a ser uma pessoa que, independente da situação, o terá como fardo e vai sempre enxergar o mundo de uma forma mais problemática que as outras pessoas. Será que essas atividades iriam melhorar meu caso, mesmo sendo algo emocional? Eu não sei, tenho uma ansiedade torturante e algum bloqueio em começar qualquer tipo de coisa nova. Me sinto um lixo.

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