Feminismo
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Enquanto a mãe está na cozinha, a filha escreve sobre feminismo no quarto

Muito do meu descobrimento enquanto feminista se deu por causa da minha mãe, mesmo que ela própria não se afirme enquanto tal, e até mantenha uma certa antipatia pelo termo.

Formada em enfermagem, embora nunca tenha exercido, minha mãe se casou com meu pai aos 27 anos, e me teve aos 28, época que ele trabalhava em uma loja de artigos dentários do meu avô. Quando eu tinha 4 anos minha mãe engravidou dos meus dois irmãos gêmeos e desde então tirou a sua vida para se dedicar à casa e à família.

Quando eu era já crescida minha mãe decidiu fazer uma outra faculdade, de psicologia, apesar do meu pai nunca ter dado pra ela o devido valor nem incentivo pra que trabalhasse fora, pelo baixo salário que recebe uma pessoa em início de carreira.

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Ainda que tenha me dado uma educação emancipadora, falando abertamente de drogas e dos direitos (inclusive sexuais) das mulheres e me criando para ser uma mulher forte e independente, meu pai, fruto de uma outra época, sempre manteve uma certa postura de inferiorização da minha mãe – nada de novo sob o sol das tradicionais famílias brasileiras.

Apesar de ter rompido com a figura do herói paterno bem cedo, por muitos anos eu comprei a imagem da minha mãe que meu pai vendia. Achava-a inferior, de certa forma menos capaz intelectualmente, como se ela tivesse nascido naturalmente destinada à execução das tarefas domésticas.

Foi só com o passar do tempo, na verdade há bem poucos anos, que reconheci-me do lado errado do jogo. Vi que apoiava o opressor, enquanto na verdade o fato de ser mulher me expunha nos relacionamentos afetivos, na família, na rua, no trabalho e em todas as esferas da vida, ao mesmo sistema de inferiorização a que minha mãe estava submetida em casa.

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Hoje, observando os fatos a partir de certa uma distância temporal, percebo o quanto a internalização dessas noções teve impactos até mesmo na minha sociabilização mais primária.

Sempre fui do tipo de menina que gostava mais de andar com os meninos do que com as meninas. Me achando inteligente, queria andar com as pessoas inteligentes, com as pessoas que faziam acontecer… e pela falta de exemplos femininos positivos e pela quase totalidade de homens em cargos que considerava relevantes, acreditava que só homens produziam, que só homens tinham voz.

Foi entendendo (e desconstruindo) um pouco disso tudo que em 2013, há apenas dois anos atrás, com o aprofundamento na vivência política assim como com a maior difusão dessas ideias que tive a coragem de sair do armário e me assumir enquanto feminista.

Como tantas mulheres, tive muito acesso às ideias feministas pela internet, e confesso que meu feminismo, se é que dá pra chamar assim, é muito mais intuitivo, muito mais fruto do que sinto, vejo e vivo; do que da leitura de Simone de Beauvoir e Judith Butler.

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Não sei nem se a alcunha de feminista me cabe (mais)

Nos últimos anos houve uma profusão intensa de discussões, memes, relatos, textos, blogs (inclusive como esse) falando de temáticas femininas e feministas, o que foi positivo na medida em que ajudou a promover o despertar de uma consciência coletiva da opressão e desse estar no mundo que é ser mulher.

Criou-se uma identidade feminista forte, que logo passou a estampar até mesmo as capas de revistas feminininas como Claudia e Marie Claire e virar tema de seriado do GNT. O feminismo rapidamente começou a ser apropriado pela indústria cultural, se distorcer de várias formas e sejamos sinceras… ficar cada dia mais chato.

Comecei nos últimos meses a repensar até mesmo se queria continuar me identificando enquanto feminista; no quanto esse termo muitas vezes cria uma barreira de comunicação entre mim e as pessoas. Comecei a perceber o quanto a “sororidade” ainda existe mais no plano das ideias do que na realidade, ou pelo menos o quanto é frágil: um delicado cristal que se quebra na primeira ameaça de uma mina beijar o ex-namorado da outra.

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O grande choque de realidade, entretanto, veio semana passada, quando procurando casa pra morar fui à casa de uma amiga que está na luta feminista há muitos e muitos anos. Conversando sobre tarefas domésticas, ela falou que não concorda com a existência de empregadas domésticas (ao que prontamente concordei) e que cada um devia ser responsável por sua própria sujeira, por lavar o próprio vaso em que caga e daí por diante.

Nessa hora minha pressão baixou e eu comecei a passar mal. Me lembrei que na casa em que estou morando com meus pais posso contar nos dedos as vezes que lavei o vaso do banheiro. Pensei em todo o esforço descomunal que minha mãe faz todos os dias pra acordar às 6h da manhã, enquanto ainda durmo, varrer e passar pano sozinha em toda a casa, arrumar a cozinha, estender a roupa da máquina, etc. Pensei na dor das costas que já se pronuncia, anúncio da velhice que aos poucos chega naquele corpo doce e magro que ela tem.

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Tomar consciência das coisas é um processo lento e doloroso, mas que se materializa na mudança de atitudes concretas e não em discursos acalorados. Tem uma frase que eu adoro que é “o que muda o mundo é seu exemplo, não sua opinião”.

Com certeza as ideias feministas ainda ecoam dentro de mim, mas atualmente, mais do que levantar bandeiras ou rotular ideologias, estou mais interessada em rever privilégios, como esse que me coloca em uma situação de exploração em minha própria casa, e dia a dia buscar alinhar cada vez meus pensamentos, palavras e ações.

Um salve imenso pra minha mãe, uma mulher forte, sábia, guerrreira, que é fonte do amor incondicional e que me ensina diariamente que a revolução é interna, pessoal e cotidiana. Como ela mesma fala, a liberdade exige trabalho duro! Aos poucos, mais com ações do que com palavras, vamos nos emancipando, nos tornando cada vez mais autônomos.

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Mantenho com alegria e amor toda a consciência adquirida, só não sei se faço mais questão do rótulo. De qualquer forma, meu sincero respeito e admiração à todas que, das mais variadas maneiras, seguem na luta!

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Este post foi publicado em: Feminismo

por

Jornalista, 26 anos. Uso criativo do pensamento e da palavra.

6 comentários

  1. Amei esse depoimento reflexivo sobre a condição feminista e o que de fato muda o mundo e as gerações ser o exemplo, muito mais do que as opiniões.

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  2. Compreendo seu ponto de vista. As vezes somente de você falar que “é” tal coisa, já faz com que as pessoas se armem com todas as possíveis pedras na mão. O problema disso talvez esteja nos discursos de ódio que são realizados, nas conflitantes opiniões internas dos movimentos, tanto no feminismo, quanto no machismo. Tudo tem um ponto positivo e negativo, o problema é como isto é exposto. Quando falo que sou machista “até certo ponto”, o que costuma acontecer é esquecerem o “até certo ponto”, e logo de cara já acham que sou um espancador de mulheres opressor. Acredito que o verdadeiro machismo está em se arriscar com situações que a delicadeza da mulher, sua visão do mundo e das relações, e seu temperamento, talvez a limite, e sempre priorizar o bem de sua família, não com uma visão soberana, mas sim de amor e coletividade. Enfim.. peço desculpas caso tenha cometido algum erro de gramática, concordância e até coerência. Fiquem a vontade para me dar um feedback. Abraço.

    Elmo Neto.

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  6. karina werneck diz

    Nessa madrugada de sexta me apaixonei por você.
    Fica com um beijo que eu fico com as melhores palavras encaixadas umas nas outras que você conseguiu criar ❤

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