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A dificuldade de falar (ou ser levada a sério) sobre vício em Facebook

Fumei meu primeiro filtro branco há uns doze anos atrás; não devia ter nem treze anos na época. Tenho uma relação super gostosa com cigarro: fumo estritamente aqueles que me dão prazer, tipo aquele pra fazer fluir melhor a conversa pós-baseado ou tomando um café depois da sobremesa.

Continuo fumando na mesma frequência de quando comecei, um cigarro por dia… ou menos. Passo tranquilamente uma semana, dez dias sem fumar. Nunca viciei. Não é por isso, entretanto, que quando alguém chega perto de mim falando que fuma três maços por dia e que o cigarro atrapalha sua vida, que eu vou minimizar a dor dessa pessoa e falar que “Não, na real ela adora cigarro, cigarro não faz mal algum”… Cada um sabe onde dói seu calo.

Ainda assim, toda vez que tenho coragem de desabafar sobre o quanto eu ODEIO o Zuckerberg e sua rede social e o quanto ela me prejudica em estar presente no dia a dia, vem alguém falando que não, que na real eu amo o Facebook e que é por isso gasto tantas horas da minha vida ali.

Desculpa informar, mas não… não amo. Pra mim o facebook é uma metonímia perfeita, uma reprodução em escala reduzida do que é o sistema capitalista em toda a crueldade de sua publicidade, vigilância e censura… E eu não amo nada disso, muito antes pelo contrário.

Que o capitalismo traz confortos, como tomar banho quente e dormir em cama macia, eu não discordo e nem tenho a hipocrisia de negar. Agora falar que eu amo esse sistema já é demais. Que o facebook pode ser usado como uma boa ferramenta, pode; mas pra mim, até o momento tem sido sinônimo de exploração e alienação.

Sei que quando vocês negam minhas palavras e minha dor em relação ao tempo que dedico à essa vida online a esse vício, o fazem dotados de boa intenção, mas acaba que na tentativa de manter a ordem, de manter tudo em paz, de continuar fingindo que está tudo bem, vocês sem perceber não escutam e silenciam o discurso de quem se arrisca a expor suas dores e dizer algo diferente do padrão.

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Uma outra forma de suicídio

Outro dia me deparei com a notícia chocante de que o índice mundial de suicídios (cerca de 800 mil pessoas por ano) é maior que o de homicídios (450 mil). Dados chocantes, ainda que provavelmente os números dos assassinatos possam estar sub-estimados uma vez que grande parte das mortes nas guerras declaradas, como no Oriente Médio, e encobertas, como aqui no Brasil, acontece por debaixo dos panos, sem o devido acompanhamento da mídia ou dos órgãos de direitos humanos.

Estima-se que, para cada pessoa que comete suicídio, existem pelo menos outras 20 que tentaram, mas não conseguiram consumar o ato.  Fazendo as contas por alto, podemos perceber o número exorbitante de pessoas deprimidas nessa Terra; ainda assim, parece haver um pacto de silêncio acerca de temas como depressão e suicídio.

> Sobre isso ler também o sensível e genial quadrinho “Sobre meus amigos suicidas”, da Lovelove6 

O que escrevo aqui reflete apenas minha própria experiência e perspectiva sobre a vida, ou seja, muito próximo de nada. Ainda assim, mesmo sem ser psicóloga nem especialista em saúde mental, acredito que as velhas definições dos livros de psiquatria podem não acompanhar as formas como a depressão e outros sofrimentos mentais se apresentam nesse mundo pós-moderno e ultra-conectado.

Me pergunto: À luz das novas configurações sociais, quantos tipos de depressão existem? Em todos a pessoa fica pra baixo/inerte ou o vício e outras formas de se esquivar da realidade podem ser consideradas formas de depressão e/ou suicídio? Depressão é só quando a pessoa fica prostrada na cama sem querer tomar banho ou trocar de roupa ou pode se manifestar também quando o sujeito fica o dia inteiro rolando o scroll do mouse naquela tela branca e azul do facebook?

Quando uma pessoa deixa de viver sua vida, trabalhar, ter amigos, se envolver em trocas com pessoas reais, praticar esportes, ter hobbies, etc, em prol da manutenção de um perfil em uma rede social, isso não pode  de certa forma ser interpretado como uma morte, uma negação da vida?

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Triste, triste mi amigo
El facebook es la muerte del alma

Sempre fui de humanas e sempre gostei de escrever. Aos dez, onze anos eu já tinha um blog (ou seria um fotolog?) e lembro na época já enchia a paciência dos meus amiguinhos pra que eles lessem o que eu escrevia e comentassem, etc. A real é que sempre fui uma criança muito sensível, e porquê não dizer, talentosa em diversos aspectos, mas nunca recebi apoio dos meus pais para que desenvolvesse a fundo nenhum talento artístico. Tendo um pai que apesar de liberal em vários aspectos (como maconha e direitos sexuais das mulheres) sempre foi rígido, cresci ouvindo que minhas opiniões não valiam de nada (não os culpo, em verdade os amo muito e sou muito grata por toda educação que recebi).

Hoje olhando pra trás e me analisando percebo que talvez meu vício em facebook se relacione em primeira instância com essa alma com alta necessidade de expressão que não conhece muitos canais para fazê-lo (por não tê-los desenvolvidos na infância e adolescência em dons artísticos); e também a essa dificuldade de valorizar minhas ideias e dedicar tempo a trabalhá-las, por medo de reprovação.

Apesar de gastar muito tempo no facebook e escrever bastante por lá, eu não trabalho nenhuma daquelas ideias. Elas saem praticamente como vêm à cabeça. Cada um tem um vício que encaixa com suas necessidades ou com a fraqueza específica de seu espírito. No meu caso não bebo, não cheiro, nem uso drogas pesadas (pra mim cannabis não é droga); mas o retorno e aprovação imediata das bobagens que escrevo online são para meu ego a licença para não encarar os mistérios dos meus silêncios assim como evitar arriscar a dedicar-me à elaboração de algo que exija mais trabalho ou que signifique chances de errar e enfrentar as dores de um possível fracasso.

“Amigo de facebook”

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O facebook também reforça uma característica que o extrapola: a superficialidade das relações atuais. Cada um constrói um perfil pessoal selecionando características que consciente ou inconscientemente considera interessantes de virem à público. Assim, lidamos com essa holografia do outro, somos amigos à distância, mas temos dificuldade de manter relacionamentos reais na medida em que na vida real não há possibilidade de lidar apenas com as características eleitas para serem tornadas públicas, mas com toda a pessoa, em sua luz e sombra.

Para uma pessoa comunicativa, com necessidade de expressão (e aprovação :/) vício em “informação”, dificuldade de concentração e tendências procrastinadoras, o facebook cai como uma luva e se instaura como um vício. Enquanto escrevo esse texto já olhei diversas vezes as notificações. O facebook é a primeira coisa que olho quando acordo, e a última que vejo antes de dormir. Chegando em casa a hora que for, cansada o quanto for, eu sempre dou uma expiada nele antes de deitar. Já me peguei várias vezes enrolando no facebook antes de ir pro rolê encontrar com pessoas em carne e osso, e outras tantas fazendo malabarismos para entrar na rede enquanto estava na presença de amigos reais.

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Pra piorar as coisas, criou-se em cima do facebook uma aura de trabalho e utilidade. Formada em jornalismo, mas atuando no campo da produção cultural, observo que entre meus pares há uma crença de que não é possível trabalhar sem facebook. Realmente, muitas pessoas se aproximam e demandam serviços pela rede, da mesma forma que é prático ter vários contatos ali na mão, mas por outro lado não tem nada pior do que misturar em um mesmo lugar demandas pessoais, profissionais, etc, todas com urgência de retorno imediato. (“Por quê você visualizou e não respondeu? Tá me ignorando?” acho que são as perguntas que eu mais odeio nesse mundo, “Você fica o dia inteiro na frente do computador, por quê não pode me responder?”)

Experiências não-compartilháveis

É inegável que as redes sociais tornaram a vida dos jornalistas e produtores culturais mais fácil, na medida em que coloca as fontes todas ali na mão. Além desta vantagem, no campo das benesses, acredito que uma das maiores potências das redes sociais seja a conexão e empoderamento de pessoas com vivências similares a partir da troca de experiências. Pensa, por exemplo, o quanto o feminismo e outros movimentos cresceram nesses últimos anos com a ampliação da discussão sobre minorias e direitos humanos nas redes sociais?

Entretanto, como não é muita novidade pra ninguém, na internet (e no capitalismo como um todo) se você não está pagando, você é a mercadoria. Por diversas vezes já me senti uma panaca trabalhando tantas horas gratuitamente para o Mark Zuckerberg, batendo cartão às sete da manhã quando acordo e só saindo da “firma” lá pras tantas da noite, quando não de madrugada, quando enfim depois de tantas horas consecutivas de estímulos meu corpo desiste, desarma e vai dormir.

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Não compactuo com as previsões apocalípticas que anunciam o fim das relações presenciais e profundas por causa da convivência virtual e sei que a internet pode, sim, ser muito massa (inclusive é a partir dela que a gente tá trocando essa ideia aqui, né?). Por outro lado,  é para muitos, nisso me incluo, um vício… Um vício num movi que é na maior parte do tempo, fútil.

A gente tenta, mas acho que certas coisas não são passíveis de serem comungadas na frente de um computador. Aquela tela azul e branca é limitada e não permitem a expressão da emoção que certas vivências mobilizam, tipo ouvir “Vida Loka” do Racionais no fone de ouvido andando na cidade depois de fumar um e entender porquê os clássicos são realmente clássicos… ou falar de política, drogas, sexo ou qualquer coisa mais séria a fundo.

Certas experiências são individuais e intransferíveis (outras, duplas e intransferíveis; outras triplas e intransferíveis, e assim por diante…) Isso falando simplesmente de nossas experiências humanas mais cotidianas, sem nem entrar no quesito da vigilância e perseguição policial-política da rede (quantas vezes eu por exemplo já não fui excluída da rede por postar fotos de peitinhos, da última vez de uma mulher grávida!).

O fato é que a verdadeira vida acontece no aqui e agora e eu cada dia mais tenho duvidado desse aqui e agora que as redes sociais têm sido capazes de oferecer… Como diz e vive um inspirador amigo meu que largou tudo e atualmente vive numa casa que ele mesmo construiu no meio da floresta amazônica… A verdadeira rede social é a rua.

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Este post foi publicado em: bem estar

por

Jornalista, 26 anos. Uso criativo do pensamento e da palavra.

3 comentários

  1. Yasmin Novaes diz

    Me definiu tanto. é uma situaçao tao triste, porém tao presente em nossas vidas… E passo exatamente pelo mesmo quando digo que odeio o facebook, que odeio a internet. Todos dizem que se eu realmente odiasse eu nao usaria.
    Fico imaginando diversas vezes como seria o mundo sem a internet… Pois não tenho ideia. Desde quando comecei a viver realmente, a internet já existia no dia a dia das pessoas. Com meus 8 anos de idade eu já tinha orkut. e a internet mudou tanto a vida das pessoas, fez com que se separassem cada vez mais ao mesmo tempo que se uniam com as redes sociais. É tão ironico, alias, se chamarem redes sociais, já que o que fazem é justamente ”anti-socializar” as pessoas, no sentido de que fazem com que se encontrem menos, se toquem menos, se olhem menos. E do meu ponto de vista, uma das piores coisas disso tudo nao foi nem comentada no seu texto, que é o vicio em celular… Pois o celular acompanha em todos os lugares. É 24 horas por dia literalmente, todos estão sempre disponíveis para ele como servos. Uma das cenas q eu considero mais trágica e que sao cada vez mais comuns de acontecer é um grupo de amigos/parentes/namorados/seja o que for juntos e olhando para as telinhas, ignorando a presença real e conversando com pessoas que nao estao presentes… É assustador, e tenho muito medo do que pode acontecer se o mundo continuar caminhando junto a este vício…

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