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Amor livre ou sexo livre? Sobre amor, relacionamentos abertos e amizade

Para ler ao som de
Marriage is for old folks – Nina Simone

Por maior que seja o amor entre um casal, mais dia menos dia (sempre) chega o momento em que um dos dois se percebe atraído por uma outra pessoa além do conjugue em questão.

Geralmente incompreendido e demonizado por nossas mães e avós como reles “putaria” e “sem vergonhice”, o impulso de beijar ou ter relações sexuais extra-conjugais vem sendo cada dia mais debatido e vivido pelas gerações mais novas.

Essa nova forma de relacionamento ganha nomes simpáticos e diversos, tais como “relacionamento aberto”, “amor livre”, “poli-amor”… Mas a situação está longe de ser tão simples ou bem resolvida quanto indicam os termos que a referenciam.

Mesmo refletindo sobre a “Ética do tesão na pós modernidade”, conforme ilustrou a genial Katzen Minze/Garota Siririca, em que medida os homens continuam privilegiados nas relações poligâmicas e/ou nos triângulos amorosos?

Se nossos avôs já traíam nossas avós, abertamente ou por debaixo dos panos, talvez não haja muito nada de novo nessa história de relacionamento aberto.

Uai, mas amor tem privilégio? 

Geralmente quando estou conversando com homens e falo sobre os privilégios masculinos em relacionamentos abertos recebo como resposta por parte deles o argumento de que “não se trata de um jogo” ou que “amor não tem privilégio”.

Posso escrever um texto mais longo sobre isso depois, mas antes de tudo, é fundamental esclarecer que a atração sexual/afetiva é socialmente construída e que privilegia certos papéis e estereótipos em detrimento de outros. (Sobre isso ler o excelente texto a solidão da mulher negra, por Marginalia)

Nos círculos mais libertários, não é raro ver homens que se relacionam/namoram com mais de uma mina – ou com várias – todas sabendo umas das outras. Esses caras são celebrados como pessoas evoluídas e cheias de amor pra dar. O contrário não é tão verdadeiro assim.

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Indicação de filme: Os Sonhadores – Bernardo Bertolucci (2003)

Primeiro que não é tão comum ver mulheres namorando dois caras simultaneamente (os dois sabendo da situação então, muito menos). Segundo que a mulher que se envolve com muitos caras ao mesmo tempo geralmente não é vista como uma pessoa cheia de amor pra dar, mas ao contrário, como uma “mulher sem valor”.

Além disso, já ouviu aquela história de “mulher de amigo meu é homem”? O fato de que mulheres são vistas como posse, objetos ou “bois marcados” de homens é outra coisa que atrapalha o livre-amar das mulheres.

Na lista dos privilégios masculinos nos relacionamentos abertos também podemos citar: o cara hétero que quer ficar com duas minas mas não aceita que a companheira se envolva com outro cara; o cara hétero que só aceita fazer menage-à-trois com duas minas e diz que jamais se relacionaria com outro cara na cama; o cara bissexual que se envolve com um homem e uma mulher, mas deixa o homem escondido e só apresenta a mulher à sociedade como um troféu; e daí por diante (a lista é longa)…

Construindo relações horizontais

De qualquer forma, não é por quê os homens têm privilégios que toda a lógica do amor livre precisa ser descartada como inválida. Os privilégios devem, sim, ser apontados, refletidos e na medida do possível superados de modo a construir relações mais horizontais, igualitárias e justas.

Neste processo é importante que ambos tenham liberdade para conversar abertamente sobre seus sentimentos, assim como respeitem seus limites e não passem por cima de si mesmos simplesmente para agradar seus parceiros.

Ciúmes não desaparecem da noite pro dia e nem são desconstruídos só por quê um casal tomou a decisão de abrir seu relacionamento. O ciúmes não deve ser negado e varrido pro debaixo do tapete, mas sim pacientemente trabalhado para ser progressivamente desconstruído.

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O amor-livre (ou relacionamento aberto ou poliamor ou o nome que você quiser dar pra ele) é uma configuração nova, que não tem receita! Cada caso é um caso e quem decide a regra é quem joga o jogo. De qualquer forma, é fundamental que todas as partes envolvidas se sintam seguras e protegidas naquele relacionamento; que exista liberdade de fala, atenção sincera na escuta e cuidado no agir.

A partir de agora não há mais um contrato que liga duas pessoas. Elas não estão juntas por quê combinaram fidelidade exclusiva uma à outra e nem por falta de opção. Estão juntas por quê se amam e decidiram caminhar juntas pela vida, para sempre ou por um certo período de tempo. Estão juntas por quê são a melhor companhia possível uma para outra.

Amor livre ou sexo livre? 

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No amor livre, os parceiros podem ter combinados diversos, de acordo com sua vontade íntima. Há casais que gostam de saber quando o parceiro fica com outra pessoa, há casais que preferem viver essa liberdade em silêncio. Há pessoas que lidam bem com o fato de ver seus parceiros beijando outras pessoas; há pessoas, que pelo contrário, preferem que a vida extraconjugal de seus parceiros aconteça bem longe de sua vista.

Tem pessoas que acham tranquilo praticamente namorar duas pessoas ao mesmo tempo, encontrando várias vezes por semana com cada uma delas. Eu pessoalmente acho que é difícil ter energia pra aguentar esse batidão todo, além de, no limite de minha evolução, achar que esse modelo dá muito trabalho e acaba confundindo demais a cabeça e o coração. Mas posso mudar de ideia com o passar do tempo…

Como capricorniana, com ascendente em virgem e lua em câncer (vênus em aquário, pelo menos), acho fundamental sentir segurança no relacionamento que estou. Pessoalmente, mais uma vez, não gosto muito de ver a outra pessoa ficando com outras na minha frente e acho importante saber que no fim das contas ele está mesmo é comigo. A pessoa tem autonomia de dar seus pulos, mas nosso amor e companheirismo é a base à qual sempre retornaremos.

Vejo as pessoas falando de amor livre mas percebo que muitas vezes elas querem dizer sexo livre: a autonomia de transar quem quiser. Pra mim a liberdade do parceiro se envolver sexual e afetivamente com outras pessoas é a ponta do iceberg. Essa não é a questão primordial.

O companheirismo como caminho 

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Nessa sociedade doente, ainda não sabemos nem amar a nós próprios direito, quiçá ao outro. Queremos controlar o outro fundindo-o à nós e às nossas vontades. Muitas vezes por nossas inseguranças dissolvemos a individualidade do outro e em nome de relacionamentos travamos nosso próprio processo de evolução.

(Quantas pessoas aí, por ciúmes de seus companheiros, já foram impedidas de serem amigas de pessoas do sexo oposto, ou tiveram de deixar de realizar atividades ou rolês que lhe davam prazer, apenas para não ferir a confortável insegurança do outro?)

Acreditamos que se firmarmos um contrato bem rígido estamos isentos do perigo de sermos trocadas por outras pessoas mais bonitas ou mais interessantes, bem sucedidas ou bem resolvidas. Mas na verdade não entendemos ainda claramente que amor não tem nada a ver com beleza, sucesso ou fama.

Aos poucos vai chegando a compreensão que nós não temos controle do outro; que se ele quiser te “trair”, ele vai fazê-lo com a existência ou não desse contrato de monogamia; que a paixão pode acontecer por outra pessoa de qualquer jeito; que muitas vezes a tensão necessária para manter-se fiel à monogamia mata aos poucos o relacionamento; que o desejo não realizado ganha dimensões astronômicas na mente justamente por sua esfera de proibição; que mais vale a lealdade do que essa fidelidade estrita que nos venderam como sendo o verdadeiro amor.

Acredito que Deus (ou o Universo, Destino, Acaso ou Caos, como lhe aprouver de chamar) coloca relacionamentos afetivos em nossa vida para nos ensinar a amar. O verdadeiro amor não tem limites nem fronteiras: é incondicional e universal e não necessariamente obedece as regras estabelecidas na Europa de séculos atrás sobre o que seria o amor romântico entre duas pessoas.

Naturalmente, o caminho não é só de flores. Dá trabalho, machuca, a gente cai, rala o joelho, faz bobagem, se estrepa. Mas no fim das contas a gente vai construindo aos poucos o entendimento do que quer e do que dá certo pra gente. Pessoalmente, a cada dia percebo que o amor que eu busco tem tudo a ver com amizade, companheirismo, diálogo e confiança.

Fique com quem te faz sentir à vontade, confortável de ser você mesmo; com quem você sente afinidade de conversar sobre absolutamente todos os assuntos da vida; com quem tem um gosto musical que completa o seu e que te dá liberdade pra dançar junto até afrouxar o corpo; com quem é gostoso assistir filme junto no domingo à tarde; com quem você confia e pode ser forte e ser fraco, amparar e ser amparado. Acredito que esse é um bom caminho em direção do amor.

Observações finais

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Se você pretende se relacionar sexualmente com várias pessoas é imprescindível o uso constante e consciente da camisinha.

Você não é mais especial do que ninguém: se uma pessoa que você transa tem relações com você sem camisinha, provavelmente ela/ele o faz igualmente com outras pessoas, e essas outras pessoas com mais outras pessoas. Essa rede de envolvimento requer atenção.

Doenças sexualmente transmissíveis não têm cara e atingem igualmente brancos, negros, heterosexuais, gays, o que for. Ame-se e cuide-se! Use camisinha.

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22 comentários

  1. Maravilhoso Lu! Eu tava caçando um texto sobre relacionamento aberto no google esses dias…. E aí o seu surge no momento certo haha. Concordo em gênero, numero e grau! Acho massa ressaltar que as mulheres também podem ser desprivilegiadas no nosso contexto em questão: Belo Horizonte. O seu texto sobre a rivalidade feminina nos relembra bastante o fato de que estamos sempre trombando as mesmas pessoas em vários roles.. e saber que uma dessas pessoas pode estar se envolvendo sexualmente com o seu parceiro fixo, não é tão fácil de ser digerido pela maioria das mulheres! É um trabalho de desconstrução de ciumes constante! Acho que o mais importante de tudo é: nunca ser submetida à algo que não nos traz satisfação (e tranquilidade), independente de conseguir ou não viver um relacionamento livre

    Curtido por 1 pessoa

  2. selma diz

    No final das contas, mais uma vez, quem mais sai prejudicada neste embroglio e a mulher. Nossa sociedade machista como e…ahaha…de amor nao temos nada, nem por nos mesmos ( concordo ) o que se defende nestes relacionamentos abertos e o sexo livre. Nada mais.

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  3. Pingback: Sobre poliamor – parte II (Ou dessa vez apenas sobre amor) | marginália

  4. Texto interessante, só não acho certo o homem ser consagrado como “maravilha” por “ter” várias parceiras, já mulheres serem “esculaxadas”, cada um tem sua maneira de se relacionar e se o parceiro aceita, ótimo. Lendo seu texto me vem uma raiva, raiva da realidade… Odeio ser, como homem, referência de determinadas coisas, como a que comentei, mas infelizmente a vida é dessa forma, não tenho como negar. “No mais”, bom texto.

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  5. Gabriela diz

    Achei muito bom o texto. Acho que existe a construção histórica de como deve ser um relacionamento e todos os dias devemos repensar e evoluir essa forma de pensar tão enraizada em nossa cultura. Mas acho que a forma como o amor livre vem sendo pensado chega a ser opressor também, porque como a autora aponta, acaba gerando privilégios, que em 99% dos relacionamentos o homem é o privilegiado, em que vale o amor livre desde que exista novos padrões e demarcaçõs, em que “viva” o amor livre pra não se responsabilizar pelo sofrimento causado no outro. Acho que amor livre é respeitar o outro. Liberdade e respeito são irmãos e pra perceber essa irmandade exige amor próprio tempo, disposição e afeto. Acho que uma relação pode ser monogâmica, poli, trans, pan, bi…desde que exista lealdade e antes de mais nada igualdade. Chega de padrões! As vezes ao tentar romper com padrões clássicos da sociedade, criamos novos.

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  6. marianasl diz

    que alívio ler isso, texto ótimo, questionamento necessário. pra falar em amor livre é fundamental falar também do discurso do amor livre.
    pra além disso, a lucidez que você propõe ao tratar das distinções entre o tal amor livre e o sexo livre é muito necessária (inclusive pra tratar com mais fluidez e libertar o sexo livre, que, coitado, continua relegado ao lado b no discurso monogâmico e precisa ser disfarçadinho com o glamour do amor no discurso poli)

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  7. Muito bom! Me identifico totalmente. Tenho um relacionamento de 3 anos e há dois começamos a conversar sobre o tipo de relacionamento que realmente queremos. E desde então temos colocado tijolinho por tijolinho. Estou exatamente como vc descreve a si mesma no texto neste momento. Não quero saber do que ele faça, nem ele quer saber. E concordamos totalmente em não ter relacionamentos paralelos, e se for pra ter outro relacionamento, concordamos que 3ª pessoa tem que se relacionar com nós 2 juntos, ou seja, todos temos que ter afinidades e nos gostar muito, justamente por acreditarmos que é tão especial o amor que tamo construindo que não dá pra enfiar qualquer energia no meio. Tem que ser algo que nos faça vibrar igual, assim como fazemos um ao outro. Bah, obrigada pelo texto!

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  8. Thiago diz

    Ótimo! Tive discussões sobre a poucos dias e meus pensamentos batem muito com o que escreveu. Alias hoje eu só vejo uma relação possível se for assim com sinceridade, companheirismo, amizade, diálogo, confiança, sexo…
    Desconstruir para construir.

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  9. O Entusiasta diz

    Ótimo texto. Poderia dizer que concordo com tudo! Vivo um dilema atualmente e gostaria da opinião da Autora… O grande problema é quando pensamos deste modo (como o texto), mas nos relacionamos com pessoas que pensam o contrário. É visível que o motivo da oposição à nova experiência seja a insegurança… Que, por sua vez, gera um ciúme inconfessável e que o cega! Como convencer esta pessoa do meu mais verdadeiro amor por ela, e de como é bom poder amar sem temores?

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  10. Ótimo texto, mas, eu sempre vi muitas mulheres se relacionando com outros caras e que todos sabiam de tudo. Acho que tem muitas realidades que não fazem parte da vida de muitas pessoas, mas, devem ser levadas em consideração. Tem muita gente que simplesmente não gosta de dividir o “amor” dela com mais de uma pessoa por achar negativa a percepção de que pode-se ter vários amores. Enfim… Gostei e não gostei de várias coisas, mas, como é um ponto de vista; é totalmente respeitável e digno. Parabéns por trazer esse assunto assim! 😀

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  11. Parabéns pelo texto e incrível clareza com que trata o assunto.
    Já tive mais de um relacionamento aberto, de diferentes formas como citaste, e em todos eles a história foi um pouco diferente, pois cada realidade é única. Um durou seis meses e outro mais de 10 anos. O meio que convivo tem uma cabeça bem aberta e era comum recebermos só elogios por nossa escolha. Apesar que em ambos os casos eu não fiquei com ninguém ou quase ninguém e a outra pessoa o contrário. Fato que foi bem resolvido até certo ponto, quando a confiança foi substituída pela mentira totalmente desnecessária, o que faz parte das histórias dos relacionamentos humanos, sem crises, mas algo a ser pensado.
    Mas essas experiências me levaram a criar uma postagem em meu blog sobre o assunto para justamente encorajar as pessoas a serem sinceras. Mais do que abrir ou manter fechado, a terem clareza do que querem e deixarem isso bem definido em “acordos”, não necessariamente escritos mas bem conversados com seus parceiros. Este seu texto, muito mais recente, abordou de forma mais madura que o meu e por isso te citarei lá. Parabéns.
    https://ventomar.wordpress.com/2014/05/26/abrir-trair-mentir-ou-respeitar-falar-confiar/

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  12. Pingback: Relacionamento: Abrir, Trair, Mentir ou Respeitar, Falar, Confiar? | idéias semanais

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