Mês: junho 2015

Cozinha ritual e magia de mãe na cozinha

Cozinha é ritual, cozinha é magia. Como todo ritual, a cozinha só dá certo se for feita com amor e atenção. por isso não existe isso de cozinhar mexendo no facebook ou falando no telefone… Pra comida sair boa é preciso presença. Boa música e boa companhia geralmente ajudam. Maconha, nem sempre. Cozinhar chapado às vezes é bom, por quê dá inspiração; mas outras vezes atrapalha, tipo quando você fica doido demais, e, estando muito disperso perde a vontade de cozinhar e prefere comer um sanduíche e ir fazer outra coisa. Então, isso tudo pra dizer que a gente pode até fazer uma pasta de grão de bico e ela ficar boa, mas aí chega a mãe da gente e faz um hummus tirando a pelinha de cada grão, um por um, e a parada explode e fica divina. Quando dei a primeira mordida tive vontade de gozar, mas não era bem isso, era meu corpo sentindo que ali naquela parada tinha muito amor concentrado. Isso faz diferença, sempre, em todos os rolês. A gente …

A menina de lá – João Guimarães Rosa

“Sua casa ficava para trás da Serra do Mim, quase no meio de um brejo de água limpa, lugar chamado o Temor-de-Deus. O Pai, pequeno sitiante, lidava com vacas e arroz; a Mãe, urucuiana, nunca tirava o terço da mão, mesmo quando matando galinhas ou passando descompostura em alguém. E ela, menininha, por nome Maria, Nhinhinha dita, nascera já muito para miúda, cabeçudota e com olhos enormes. Não que parecesse olhar ou enxergar de propósito. Parava quieta, não queria bruxas de pano, brinquedo nenhum, sempre sentadinha onde se achasse, pouco se mexia. – “Ninguém entende muita coisa que ela fala…” – dizia o Pai, com certo espanto. Menos pela estranhez das palavras, pois só em raro ela perguntava, por exemplo: – “Ele xurugou?” – e, vai ver, quem e o quê, jamais se saberia. Mas, pelo esquisito do juízo ou enfeitado do sentido. Com riso imprevisto: – “Tatu não vê a lua…” – ela falasse. Ou referia estórias, absurdas, vagas, tudo muito curto: da abelha que se voou para uma nuvem; de uma porção de …

os menor correria

dos bons encontros da vida: fui fumar um com um amigo na barragem, trombei três menor mil grau, dois deles gêmeos. um dos gêmeos pediu o isqueiro, a gente começou a trocar ideia. contei pra eles que eles acreditassem ou não, que eu era DJ e tocava funk na noite. começamo a trocar ideia sobre funk e um deles começa a desembolar um funk mais doido do mundo, autoria dele. falou que gosta de cantar sobre maconha, consciente e putaria.. mas que também grada de fazer apologia. falou que tem mais de 35 sons compostos, que gosta de escrever, que não é de belo horizonte, que a quebrada dele tá lombrada, que tá aqui só de passagem. falando sobre putaria, perguntei se ele usava camisinha. ele soltou um “claro” tão sonoro que deu uma esperança a mais nesse dia azul. daí falei com ele, zuando, que eu era feminista, e que gostava dos funks das minas. e perguntei se ele pensava no prazer da mina quando tava transando. aí ele falou “lógico, cê acha que …

Sororidade seletiva: travestis, transexuais e os limites da categoria mulher

Texto de Vanessa Sander para Clitóris Livre. Há algum tempo venho reparando um crescimento de discursos transfóbicos dentro dos espaços feministas (online e offline) nos quais circulo. E isso me incomoda, pra dizer o mínimo. As Terfs, Trans Exclusionary Radical Feminist, como convencionou-se chamar aquelas feministas contrárias a inclusão de pessoas trans, parecem ofendidas com o fato de que pessoas não designadas mulheres ao nascer possam posteriormente se identificar como tal. Elas satirizam tal identificação, tratando-a simplesmente como uma alucinação, uma escolha pessoal (num sentido individualista) sem maiores consequências, descolada de qualquer contexto. Vejo o ‘construcionismo caindo nas emanações radiantes do cinismo’, como diz Donna Haraway. Quando ressalto que todo gênero é desde sempre uma forma de construção profundamente real, para pessoas cis ou trans, as Terfs perguntam: “Ah! Então o que é ser mulher“? Muitas até admitem: “Ter buceta não determina o ser mulher. O que determina é a socialização que recebemos enquanto seres nascidos com buceta.” Desloca-se o determinismo biológico para o social. Trata-se a tal ~socialização~ como uma entidade metafísica, sem nuances, …