Feminismo
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Empatia é verbo – Sobre transfobia no feminismo

Em uma discussão sobre o medo das feministas da internet de serem estupradas por travestis no banheiro feminino, me acusaram de estar sendo muito desrespeitosa ao afirmar que “ser mulher é muito mais que ter uma buceta”. Gostaria de tentar explicar melhor meu ponto de vista.

Por motivos que seriam interessantes de serem pesquisados, mas que no momento tomo como pressupostos, existem no mundo arquétipos do que é o masculino e do que é o feminino.

O conteúdo desses arquétipos não é fixo, mas sim objeto constante de luta e negociação, o que faz com que, felizmente, ser mulher hoje em dia signifique uma coisa bem diferente do que significava na época de nossas avós.

A luta feminista, pelo menos a luta que acredito, se volta à desconstrução dos papéis de gênero impostos historicamente pela sociedade patriarcal.

Não acredito que a mulher seja em essência NADA. A mulher não é doce por natureza, nem pior motorista, nem melhor dona de casa. Da mesma forma, não existe um ponto de chegada para o feminismo. Não existe um modelo de mulher que queremos atingir.

A luta em torno das identidades de gênero se legitima por quê a diferença de poder estabelecida historicamente entre homens e mulheres é o terreno sobre o qual se instauram todo tipo de violência e opressão.

É contra isso que nos levantamos! O sucesso da luta, para mim, reside na garantia da igualdade de direitos, por um lado, e na liberdade da diversidade, por outro.

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Mas voltando ao tópico que motiva esse texto, o binarismo masculino e feminino é tão forte no inconsciente coletivo que, por motivos que não nos cabem tentar explicar, existem pessoas que sentem que nasceram no corpo errado e não se identificam com o órgão sexual nem com a identidade de gênero nem com a suposta orientação sexual que a sociedade acredita que era pra ter vindo no pacote.

Assim, há homens que nasceram em corpos de mulher e não se sentem donos dos seios que brotam em seu torso e mulheres que nasceram com um pinto entre as pernas. Assumir essa identidade transgênera é comprar o boi de fazer parte de uma das classes de pessoas mais marginalizadas da nossa sociedade.

Você sabe qual é a expectativa de vida de uma mulher trans? 30 anos. Hipersexualizadas e vítimas preferenciais de abusos e homicídios, assumir-se travesti ou transexual é, no mínimo, saber que a vida vai ser 50 vezes mais difícil pra você, a lidar com toda a rejeição e violência da ‘sociedade de bem’, do mercado profissional que fecha todas as portas e muitas vezes coloca a prostituição como única opção.

Tô vendo mina que prefere acreditar na possibilidade remota e extraordinária de ser estuprada por supostas travestis lésbicas no banheiro feminino do que pensar em todo o perrengue que as trans passam no dia a dia e apoiá-las.

Sou mulher cis, branca, quase que majoritariamente heterossexual e nunca saberei o que as pessoas trans passam e nunca poderei falar por elas. O objetivo desse texto não é esse. Se escrevo é para, frente à todos os disparates que andam circulando por aí, pedir um pouco de bom senso, respeito e empatia, coisa que não se aprende na faculdade nem na teoria.

“Você que sabe demais, meu pai mandou lhe dizer, que o tempo tudo desfaz, a morte nunca estudou e a vida não sabe ler. Não dá pra ninguém saber, por que é que há… quem lê e não sabe amar, quem ama e não sabe ler.”

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Este post foi publicado em: Feminismo

por

Jornalista, 26 anos. Uso criativo do pensamento e da palavra.

9 comentários

  1. Pingback: Despatologização das identidades Trans e Travestis

  2. Nem li o texto ,mais me me chamou atenção olhando as fotos de capa, e algumas frases soltas, e tambem a foto dessa materia que a ha varias associações interessantes do feminismo com um tipo de natureza, com religiões onde deusas são destaque, e com uma liberdade.No entanto essa foto ,a primeira do casal, leva a conclusão de que certas liberdades que o feminismo ou os trans almejam so podem ser conseguidas mediante as conquistas tecnologicas, ou seja aborto, intervenções cirurgicas, anticoncepcionais etc, e so podem existir em um local onde quase extiguimos a natureza, que são as cidades,a civilização moderna,ou seja essas opções libertarias e que se fazem assosciar vez ou outra com a natureza so pode existir onde ela, se não e extinguida e minimizada controlada ao maximo.Apenas um ligeiro apontamento de uma contradição nas bases do pensamento

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    • Boa questão. Também já fui levado a crer que a natureza é um dado estático, incontestável e incompatível com a tecnologia. Não sei em que medida isso é verdade. Talvez se considerarmos o controle do fogo, ou a invenção da caneta como “avanços tecnológicos” veremos que talvez possamos utilizar esses avanços de formas interessantes e criativas. De todo modo, também desconfio de relativizações extremas. O plano concreto deve existir, pois, sem ele, seríamos incapazes de realizar as tarefas mais simples (como atravessar a rua, por exemplo). Nesse sentido, acho interessante os homens se incluírem nessa discussão de gênero (às vezes mesmo sem serem convidados) para dizer que também nos incomodamos.

      Um abraço Sandro

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      • Ela e imcompativel principalmente com nossas noções de avanço social, imagina que quanto mais existe uma comunidade proxima de estados mais “naturais” ,menos recursos tecnologicos existem para se esquivar de certos “papeis sociais”,exemplo,existem aldeias de indio que apenas homens caçam pq se sabe que determinadas caças setem de longe o cheiro da mulher principalmente qdo estão menstruadas, e um fator biologico determinante, nada pode ser feito aquelas mulheres mudarem isso,então cuidam de roças e outras coisas. Não que isso determine dominio sobre a mulher, de forma nenhuma. De toda forma acredito que o futuro e dos amputados, mesmo com membros bons faremos intervenções,mudares totalmente o corpo olho,para ter um melhor e imagino que a questão de genero vai definhar bastante, se pa, ate desaparecer, esse e o perigo acho dessas igualdades criadas a parti de tecnologias, não uma igualdade, mais uma dissolução dos generos e da nossa “natureza”.

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