Relacionamentos e Sexualidade
Comentários 12

“Ah, aquela piranha…” A eterna rivalidade feminina

Dizem as estatísticas más línguas que Belo Horizonte, a cidade daonde venho, possui 10 mulheres para cada homem. Talvez seja diferente em outros lugares, mas por aqui uma coisa que sempre me intrigou é como homens e mulheres lidam de maneiras completamente distintas com o fato de ficarem com pessoas em comum.

Enquanto dois homens, se já não eram amigos antes de beijarem a mesma dama, muito provavelmente o serão daí a pouco; a competição entre mulheres é tão forte que muitas vezes duas minas que por acaso coincidiram de se relacionar com o mesmo cara tornam-se inimigas mortais, um desafeto que é estendido para muito além do tempo de envolvimento delas com o par de calças em questão. “Ah, aquela piranha…”

tumblr_lr6gnxAXrS1qa39umo1_1280

Se buscarmos à fundo, a competitividade feminina pode ser relacionada a diversos fatores.

Pensemos nas brincadeiras infantis. Voltando ao modo como meninas e meninos são educados, podemos ter uma boa pista do por quê isso acontece. Enquanto meninos são criados com jogos e atividades estimulantes mental e fisicamente, recebendo incentivos para serem grandes pilotos, inventores, construtores ou astronautas; meninas são educadas para serem belas e delicadas princesas, mães e donas de casa.

tumblr_lsyz7q4FDk1qzdyvko1_500

Na adolescência, enquanto meninos podem descobrir sua sexualidade livremente através da masturbação, as meninas são tolhidas de tocar seu próprio corpo (o bom e velho ‘tira a mão da perereca, menina’). Enquanto os meninos são congratulados por serem pegadores, as meninas recebem a alcunha de vadias que não se dão ao respeito.

Além do comportamento, também a cobrança em relação à aparência é muito mais ferrenha sobre o lado feminino da força. Na vida adulta, a mulher lida com o envelhecimento de uma forma completamente diferente do homem. Se as rugas e cabelos brancos neles são indícios de charme, nelas representam o pavor de serem abandonadas por mulheres mais belas e jovens e ficarem sozinhas para sempre.

Para a mulher que foi castrada de desenvolver-se satisfatoriamente em atividades intelectuais, artísticas ou profissionais, o relacionamento afetivo muitas vezes representa toda sua possibilidade de realização pessoal. Visto que o homem é tido como fonte de felicidade, proteção e auto-estima, o valor da mulher passa a residir no fato dela ter ou não um companheiro.

Desta forma, o sentimento de posse soma-se ao medo do envelhecimento, do abandono, da rejeição e da solidão nos motivos que levam as mulheres à competirem tanto entre si. Ganham forças então, até mesmo entre as próprias mulheres, as narrativas que dizem que ‘mulher não é amiga entre si’, que ‘mulher é tudo invejosa e fura-olho’ e daí por diante.

tumblr_lr2bksbB9F1qf37dao1_500

Quanto mais competimos entre nós mesmas, quanto mais fragmentadas nos deixamos estar, mais nos sentimos isoladas e desprotegidas e mais damos forças ao patriarcado para continuar perpetuando a ideia de que somos fracas e que a felicidade reside em um homem ou em um relacionamento afetivo, assim como toda a lógica acima descrita.

Embora minha militância seja de dia-a-dia e eu nunca tenha feito parte de nenhum coletivo organizado, de toda vivência feminista que eu tenho oportunidade de participar saio com a fé renovada na irmandade feminina, ou sororidade, como preferirem chamar.

Embora eu queira ter uma boa relação de amizade com todos os caras que já me relacionei, me interessa muito mais a amizade das minas. Eles vem e vão, nossa amizade fica. Nossa cidade é pequena, nosso rolê é mais ou menos o mesmo… inevitalmente a gente vai acabar se envolvendo com alguém que faz parte do passado de outra pessoa. Transas, rolos, namoros, paqueras, tudo isso é passageiro. Deixa de ser boba mina, eu quero ser sua amiga.

Só quem ganha com a competitividade feminina são os homens. Se a gente pouco a pouco desconstruir essa obrigação que nos foi imposta de sermos bonitas, frágeis, doces e femininas; se a gente pegar toda essa energia que gastamos competindo e brigando entre nós próprias em prol de evoluir e nos proteger, com certeza todas nós sairemos fortalecidas… E eles param de nos fazer de trouxas com seu tradicional sororimacho associativismo masculino.

tumblr_liws1kwOT91qzir9mo1_500

Anúncios

12 comentários

  1. tita diz

    pior que é mêmo…
    negócio inraizado nas profundezas de nossa Ser feminina… ela tem, sem reconhecer-se, o medo de ser livre.

    é noes Loes, também animo demais ser sua amiga.

    tipo mana

    Curtir

  2. Sábata diz

    Poxa, mas como lidar com uma mina que você não conhece, nunca conversou, e que fica mandando msgs para o seu namorado, dizendo que está com saudades. Que quer viver coisas com ele, e deixando bem claro, que não é apenas amizade.
    Eu escolhi não lidar, ignorar. Não tornar importante o que não é. Mas, nao me agrada nem a ideia de cruzar um dia com tal moça pela rua.

    Curtir

    • Mas ai é falta de respeito à você. Conversar com ela não adianta então fala com seu namorado parar de dar esses tipos de confiança a ela. Não tem como ser amiga de alguém que não te respeita, isso é diferente!

      Curtir

  3. LUCIENE SANTOS diz

    Olá, gostei muito deste texto. justamente porque esta é uma questão que me incomoda muito em ver que as mulheres se digladiam por causa de homem. No meu livro que escrevi sobre o Abandono e a ausência Paterna, também, me reporto a esta questão, lembrando que o nosso histórico de rivalidade vem do tratamento social dado a mulher que a dividia entre: as prestavam e aquelas que não prestavam. Peço licença para postar um trecho do meu livro aqui. Caso não seja, permitido é só excluir que será compreendido.

    (…), a partir da
    década de 80, o número de separações
    conjugais e divórcios cresceu a olhos vistos, também na periferia. E, a partir daí, tornou- se mais comum a circulação da figura da
    madrasta também no seio das áreas
    pobres. No entanto, o comportamento culturalmente intrínseco, no imaginário
    social, relacionado à figura da madrasta
    com seus enteados, se reforçou com um
    agravante de porte. Agora, o comando do
    lar em quase toda totalidade passaria para
    suas mãos.
    Mulher que “prestava” x mulher que “não prestava” (aproximadamente, até fim
    da década de 80):
    1 – casava virgem (ou, pelo menos, não
    havia aparecido “barriga”): prestava;
    2 – perdia a virgindade antes de casar
    (dava o azar de ser descoberta, mesmo que
    não “pusesse” barriga): não prestava;
    3 – grávida solteira (“perdida”): não
    prestava;
    4 – casada (mesmo que o homem não
    prestasse): prestava;
    5 – solteira, com mais de 30 anos (“en- calhada”): se tivesse fama de virgem:
    prestava. Caso contrário: não prestava;
    6 – separada (mesmo que fosse daquele
    homem acima que não prestava): não
    prestava;
    7 – desquitada (o mesmo que pros- tituta): não prestava;342

    8 – divorciada (ia para o ostracismo
    social): não prestava;
    9 – viúva (dependia da idade) idosa:
    prestava; Jovem: se casasse de novo: prestava. Se não casasse, levaria a fama de “viúva fogosa”: não prestava.
    (trecho do livro: Marcela-Pela Outra Metade da Árvore/ Luciene Santos)

    Curtir

  4. Fernanda diz

    Acho que nesse caso podemos falar sobre a traição. Quando o companheiro trai sua companheira, e ela fica é com ódio mortal da mina. sendo que se o namorado não quisesse, poderia não ter ficado com a mina.

    Curtir

  5. Rayane diz

    Tive sorte que minha mae nao me criou para competir com outras meninas e que na epoca escolar e ate mesmo agora nunca me importei em nao ser a garota que chama atencao dos garotos, nao odeio as outras meninas e nem tento competir com elas. O que eu acho mais absurdo nisso e que muita gente acha que eu estou mentindo quando falo isso e e nessa hora que eu vejo o quanto isso esta enraizado na nossa sociedade na qual uma menina dizer que nao sente inveja e que confia nas amigas e mentira.

    Curtir

  6. Tudo que li faz muito sentido, e confesso que sou bem competitiva com as outras mulheres, mas sabe quando vc percebe que incomoda muito ter essa rivalidade com as outras mulheres? Eu não entendia muito de onde vinha esse sentimento tão ruim de rivalidade e inveja, agora vendo esse post percebo o qnt essa rivalidade é imposta desde pequena e vejo o quanto faz mal para nós mulheres… n gosto nenhum pouco de depender de um homem para ser feliz, mas parece que na minha vida só busquei isso e deixei minhas melhores amigas de lado, seja p ficar com um garoto ou namorando etc… é para se pensar e refletir…
    Outra coisa interessante é o fato de que minha infância toda fui praticamente criada pela tv, pois meus pais trabalhavam o dia todo e eu ficava na maioria do tempo sozinha na frente da tv… e posso dizer q os desenhos tbm incutem esses valores, principalmente se eles forem voltados para meninas… por isso q eu passei minha infância toda sempre correndo atras de um menino para me apaixonar ao invés de me importar com outras coisas… agora fico aki escrava desse sentimento que não traz beneficio nenhum…

    Curtir

  7. Pingback: Inimigas? Mulher faz elogio à madrasta da filha e imagem viraliza na internet - Portal Fórum

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s