Crônicas
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Meu amor platônico está de cabelos trançados

“…Saravá mineira guerreira / que é filha de Ogum com Iansã…”

Tenho olheiras escuras de quem dorme pouco e olhos grandes, daqueles que vazam branco embaixo da íris, feitos para desvender das pessoas o interior e o invisível em torno delas. Ando pelas ruas desatenta aos buracos mas especialmente desperta aos tipos humanos, o contorno de suas dores, a especificidade de sua beleza, a magia de sua presença.

Tenho uma alma viva, apaixonada pela existência humana, em sua matéria e densidade, mas que no geral se satisfaz em apenas reconhecer a beleza do outro, abaixar os olhos e seguir meu caminho, ou no máximo, em dias mais alegres, sustentar brevemente o olhar que se cruza e permitir que do rosto floresça um sorriso.

Ao lado dessa alma comunicativa e instintiva, nascida com necessidade de expressão e poesia, habitam em mim vários outros eu’s com personalidades distintas e muitas vezes divergentes. Um deles é meu censor/vigia, uma presença soturna, meio mal humorada, extremamente auto-crítica e um tanto pessimista, mas que ao mesmo tempo eu agradeço pela existência uma vez que ajuda a manter minhas raízes firmes no chão. Ele jura de pé junto que só cumpre “as ordens dadas” e que trabalha de acordo com as leis sociais da tradição. Vai saber…

Em todo caso, para essa conversa agora importam menos os méritos e deméritos do vigia do que o que acontece quando ele cochila ou se distrai. Nos momentos em que a censura íntima baixa a guarda, a alma aproveita a deixa para tomar completamente conta do corpo e trazer à tona a realização de todas as suas vontades e aspirações mais íntimas.

Essas ocasiões da alma tomar as rédeas do corpo acontecem, por exemplo, quando entre os milhões de seres que atravessam nosso caminho todos os dias passa por nós uma outra alma que reconhecemos como uma velha companheira. Pode acontecer, como tantas vezes acontece, que frente a esse encontro nosso espírito desperte imediatamente, e mesmo sem a autorização da mente ou do vigia, quando damos por nós já percorremos metros em questão de segundos, demos uma pirueta no meio do caminho e nos encontramos aqui parados frente à frente, sem entender direito que impulso foi esse ou o que temos pra dizer uma pra outra.

Eram umas onze horas da manhã. O dia estava quente e ela vinha iluminada pelo sol. Usava um vestido longo, colorido e esvoaçante. Era negra e forte, tinha os seios fartos, o nariz largo e naquele dia tinha o cabelo claro e crespo preso no topo da cabeça, revelando todo seu volume e seus pequeninos cachos. O movimento do meu braço foi mais rápido que o dos meus pensamenos e quando percebi já havia encostado muito de leve na região próxima à sua mão.

– Você é muito linda, falei.

Disse espontaneamente, sem pensar, mas na medida em que eu ouvia minha voz ressoar no espaço o sangue já começava a correr cada vez mais gelado pelas veias. Além de linda, eu sabia que ela tinha também a fama de ser brava pra porra. Pelo jeito forte e decidido com que caminhava e pelo vento quente que sua saia movimentava, quem fosse mais sensível adivinhava logo de cara que o ori daquela guerreira tinha Iansã como dona da morada. Nascida e criada na favela, diziam as histórias sobre ela que jamais abaixara a cabeça pra homem nenhum.

Não me deu a menor moral, lógico. Recebeu o elogio e guardou na bolsa com o mesmo interesse de quem recebe um santinho no centro da cidade. Morrendo de vergonha, remoí o atrevimento em todo o caminho de volta pra casa, me prometendo que nunca faria isso de novo. Com o tempo parei de pensar a respeito e hoje em dia quando a gente se encontra a gente se cumprimenta normalmente e até trocamos uma ideia massa. Contrariando o quadro que me pintaram dela, uma mulher extremamente combativa e nervosa, sua fala é doce e seu olho dana a brilhar quando ela fala das coisas que acredita… É bonito por demais.

Às vezes penso nela e tenho intuições fortes a seu respeito, sinto vontade forte de lhe escrever, mas acaba que não falo mais nada e fica tudo por isso mesmo. Já sonhei algumas vezes com ela. Uma vez que estava com meu ex-namorado em um parque do Rio de Janeiro quando ela chegou, de cabelos trançados, subiu no banco em que estávamos sentados e começou a nos dar bocetadas na cara; outra, em que ela aparecia tranquila, não dizia palavra, mas dançava muito, como gosta de fazer, e parecia feliz.

Acho que no fim ela se tornou apenas mais uma dessas pessoas que a gente treme um pouco quando pensa a respeito mas guardamos, resignados, no espaço reservado para paixões exclusivamente platônicas no fundo do coração.

Outro dia, porém, ela realmente apareceu de cabelos trançados.

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Este post foi publicado em: Crônicas

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Jornalista, 26 anos. Uso criativo do pensamento e da palavra.

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