Relacionamentos e Sexualidade
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O que aprendi em um relacionamento à distância

Na adolescência, estudando em colégio particular, tive muitas amigas que foram passar um ano fora do país em programas de intercâmbio. “E o namoro? Você vai terminar, né? Deixa de ser boba, se desliga dessa realidade daqui, vai aproveitar a vida…” Do alto dos meus 16 anos de pretensa experiência e vivência, esse era o meu conselho para todas que iam em busca do novo, além-mar.

Alguns anos mais tarde, vivi meu primeiro amor. Pra algumas pessoas acontece aos 7 anos de idade, pra mim aconteceu aos 21. A gente se conheceu quando entramos no curso de Ciências Sociais, mas só depois de uns 3 anos de amizade é que fomos, bêbados que nem dois cachorros, dar nosso primeiro beijo. E eu vi luzes coloridas quando beijei ele pela primeira vez.

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Na época, até mesmo os amigos dele me advertiam pra tomar cuidado, que ele não era homem pra se apaixonar. Sem muita expectativa, segui o conselho. Nos encontrávamos na casa dele e depois de fazer amor uma, duas, três, quatro vezes… eu contava pra ele dos meus outros amores, e ele me contava sobre suas outras amantes. Lembro de ter escrito num papelzinho uma vez que ele era um homem tão bom que era pecado manter ele preso a uma mulher só.

De qualquer forma, quando estava começando a gostar dele, ele foi passar 6 meses na Argentina. Quando voltou, me ligou e fomos juntos pra Bahia. Acampamos numa barraca velha, sem colchão nem roupa de cama. A água do encanamento tinha vontade própria e faltava sempre. A gente começava a tomar cachaça às onze da manhã e só parava ao raiar do dia. Acho que foi depois dessa viagem que parei de beber.

Voltando para Belo Horizonte, contrariando todas as expectativas, engatamos um namoro. Ele era romântico, doce e inteligente, embora costumássemos competir muito. Ainda que a gente desse muito certo, havia também uma boa dose de insegurança e ciúmes em nosso relacionamento. Para evitar maiores complicações, durante o ano em que namoramos presencialmente, dava sexta feira eu ia pra casa dele e só saía de lá na segunda de manhã.

Naquele mundo de livros, quadrinhos, cinzeiros, garrafas de vinho, xícaras de café e escritos na parede que era o quarto dele experimentei pela primeira vez os famosos orgasmos múltiplos e descobrimos juntos o toque como caminho e o sexo como um portal para a espiritualidade e o auto-conhecimento.  Foi ele ‘coincidentemente’ que quando ainda éramos só amigos me levou na umbanda pela primeira vez.

No fim do primeiro ano de namoro, ele concluiu o curso de Ciências Sociais e passou em um concorrido mestrado no Rio de Janeiro. Meu mundo caiu. Eu, que não costumava ter inveja dos outros, experimentei a dor de sentir inveja do meu próprio namorado; eu, que tinha diretrizes certas de como agir – na verdade de como evitar – relacionamentos à distância, me via prestes a embarcar em um.

O primeiro mês longe foi o pior de todos. Era como se tivessem arrancado um pedaço meu de mim. Inconsolável, eu chorava o dia inteiro. Sendo espírita, coloquei pra mim a obrigação de aprender a lidar com a situação. Se a vida não acaba com a morte do corpo, também o amor não acaba com a distância. Outra lição que tive que aprender logo no começo foi abandonar por completo (ou quase) o ciúmes. Se fosse pra pensar nas mulheres que estavam perto dele em todo rolê que ele ia, eu ia ficar louca.

13-10

Para aprender a lidar com a saudade, tive que aprender a ser dura: desenvolvi uma casca. Durante os dois anos que passamos à distância, passamos por diversas fases, algumas em que inventávamos pra nós mesmos a narrativa de que a distância física não doía, outras em que voltávamos atrás e admitíamos o quanto era desesperador estar separado.

De qualquer forma, apesar das limitações óbvias, mesmo à distância ele sempre esteve presente pra me amparar, conversar comigo, me confortar nos momentos de dor e celebrar comigo minhas pequenas vitórias. Estando espiritualmente conectados, era muito frequente estar num rolé, numa roda de samba, por exemplo, fechar os olhos e ver a carinha dele aparecendo pra mim. Muitas vezes também sentia forte a presença e o cheiro dele no meu quarto, sonhávamos muito um com o outro. Quando nos encontrávamos – cerca de uma vez por mês – tudo era intenso e valia a pena, apesar de cada despedida significar ter de viver novamente a dor da separação.

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Como falei, durante o tempo em que morávamos na mesma cidade, a gente sentia muito ciúmes e para evitar as brigas, nos fechamos um na asa do outro, praticamente parando de sair com as outras pessoas. Vivendo o fim de semana em função da arte do amor, saía da casa dele com olheiras pretas e fundas, e não direcionava minha energia pra muita coisa além de ser sua mulher.

Namorar à distância, desta forma, me possibilitou resgatar minha independência e minha autonomia, voltar a dar meus rolés, a ter tempo e energia pra me dedicar a outras coisas. Aprendi que a energia do amor transcende a presença física e que o laço que une duas pessoas que se amam é elástico e vai longe… Namorando à distância aprendi a confiar no meu parceiro e em seu amor. Era uma escolha nossa estar junto, fosse difícil quanto fosse.  

Visto que os encontros eram muito intensos e traziam à superfície toda a força daquele amor, com o passar do tempo cada despedida passou a ser mais dolorosa. Nos separávamos e depois de experimentar novamente todas aquelas deliciosas sensações de amparo e carinho, eu me via novamente sozinha, tendo que novamente reconstruir minha casca e me convencer de que não havia nada de errado com a distância. Isso com o passar do tempo começou a machucar muito. Naturalmente também ele tinha suas dores, ainda que diferente das minhas. Todo casal, estando fisicamente perto ou não, tem suas questões. A distância representa um desafio extra para trabalhá-las.

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Outra coisa difícil, naturalmente, é a carência, a vontade de encostar, sentir a pele, o gosto… Ter alguém pra assistir um filme a seu lado no domingo à tarde. Durante a maior parte do namoro à distância, vivemos um relacionamento monogâmico. No final, experimentamos abrir o relacionamento sem falar muito sobre isso; nos separamos e voltamos algumas vezes por não conseguir ficar longe um do outro (ainda que à distância) e no final, em março desse ano oficialmente terminamos nosso namoro.

Terminar um namoro à distância é diferente de terminar um namoro ‘presencial’ por que à distância você já está relativamente acostumado a não ver a pessoa todo dia. Ainda assim, quando acho que estou bem, continuo levando caldos da tristeza e da dor da separação, da saudade de ouvir a voz dele, de poder conversar sobre todos os assuntos imagináveis com a pessoa que mais amo e confio nessa Terra, a pessoa que me ensinou o que é o amor, que vale a pena seguir no caminho do bem, e daí por diante.

Nesse momento agora, naturalmente tudo o que eu não quero é um relacionamento à distância. Sendo viciada em internet e nessas virtualidades todas, quando terminamos o namoro saí com a certeza de que preciso de presença, senão a de outra pessoa, pelo menos a minha própria… inteira, íntegra, constante!

Apesar disso, essa vivência – com certeza o amor mais intenso que já vivi até hoje – me fez mudar completamente de opinião em relação aos relacionamentos à distância. Se seu coração diz que sim, apesar de todas as dificuldades, encare. Viva essa experiência! É possível, sim, amar sem estar do lado da pessoa durante todo o tempo. 

Antes que alguém me pergunte por quê não fui pra lá ficar com ele, explico. Se no primeiro ano ainda não tinha me formado, depois tinha medo de, como tantas mulheres da minha família, inclusive minha mãe, abdicar de minha vida e de meus sonhos pra seguir o caminho de um homem. Ainda assim, tentei por duas vezes me mudar para o Rio de Janeiro, o que infelizmente não deu certo. Talvez se eu pudesse mudar alguma coisa nesse caminho, teria tido mais coragem e ido pra lá na tora mesmo.

De qualquer modo, não se muda o passado. Eu fui muito feliz durante esses dois anos à distância, e se fosse pra voltar no tempo, faria tudo de novo.

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11 comentários

  1. apane diz

    Excelente texto, aliás o blog todo é lindo li todas as publicações amei. Nossa você soube bem transmitir seu relacionamento em palavras um amor real parabéns. Aguardo novas publicações *-*

    Curtido por 1 pessoa

  2. Júlia diz

    ai, que texto mais lindo! e por sorte acabei lendo logo agora, que estou passando pela mesma coisa. todo mundo me acha louca por acreditar que existe amor em relacionamento à distância, mas só quem sente isso entende. ler seu texto foi muito reconfortante pra mim, Luísa. muito, muito obrigada ❤

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  3. Maria Júlia diz

    Muito bacana essa publicação sobre namoro a distância. Vivi um namoro a distância que durou quase 1 ano e foi bem intenso, apesar de não ter convivido fisicamente com a pessoa.
    Parabéns, você demonstrou em palavras que é possível amar uma pessoa sem estar com ela fisicamente.

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  4. Débora diz

    A internet é maravilhosa ás vezes.
    Estou passando pela mesma coisa que passaste. Depois de dois anos de presença eis a separação. Também foi para o Rio de Janeiro. Mas felizmente meus sonhos coincidentemente seguem o mesmo destino que o dela, porém, o meu houve um atraso. Ela passou no vestibular, eu não.
    Mas dos sonhos não se desiste, não é mesmo? Mesmo que demore e mesmo que irei sofrer nesse tempo de espera, sei que em um certo momento estarei na presença dela, meu grande amor.
    Obrigado pelo seu texto, me encheu de um carinho único!

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  5. Muito amor por esse texto! Admiro muito sua independência e a sua vontade de fazer dar certo. Eu tô na mesma situação (ou quase): conheci meu namorado em um intercâmbio e agora, infelizmente, cada um já está em seu respectivo país de origem. Eu ainda tenho aquele sofrimento diário por ter que acordar sem ele, sem contar as horas de diferença que impedem a gente de fazer algo ao mesmo tempo – assim, só pra se sentir um pouquinho mais conectado. Não posso ver ele todo mês, tô me preparando para 4 meses e meio até que a gente se encontre novamente.
    Seu relato me inspirou bastante pra fazer valer a pena. É bom saber que essas etapas de tristeza são comuns e que, sim, tem como lidar com tudo.
    Obrigada ❤

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  6. Marcelo diz

    O amor está para distancia o que o vento está para o fogo, os pequenos se apagam e os grandes se inflamam mais.

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  7. Thamires Dias diz

    Isso aconteceu comigo confesso que e a pior dor que existe a gente ficou longe 7 messes como ele foi pra Espanha era impossível de nós encontrarmos, ele tinha um ciume doentio que me sufocava por vezes, e não aguentei a falta de um homem e acabei traindo ele, e contei pra ele oq tinha acontecido só que ele não entendeu que assim como homem mulher também sente falta de carinho, assim então terminámos foi muito difícil aceita mais com o tempo você melhora. Hoje ainda conversamos pensamos sim em voltar só que não a distância. 💔 esse texto e lindo e descreveu minha vida❤

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  8. Yaruka diz

    Acho válido o relacionamento a distância quando se tem previsão de voltar a ficar juntos. Estou estudando para concurso e se passar, vou me colocar numa situação de relacionamento à distância também. Felizmente com o salário que ganhar vou poder me dar ao luxo de vê-lo com frequência (1 vez ao mês, ou mais); mas imagino que deva ser bem cansativo. mais de 1500 km de distância… O bom é que como é concurso federal, posso voltar a morar perto dele em alguns anos. Mas não imagino a possibilidade de desistir da relação. É muito amor, rs

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  9. Maiky Antônio nascimento silva diz

    Nossa , idêntico ao meu caso ,inclusive até a religião, porém as cidades diferentes, no meu caso terminamos um amando o outro , só que ela foi morar no Egito por um ano , o que foi a gota dagua, e daí ela acabou soltando a corda , enfim, queria saber como vc passa esses tempos agora ? Se conseguiu se recuperar ? Porque eu estou na espera de um milagre. … mais obrigado pelo texto , achei q fosse o único que tinha passado por isso!

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