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As dores e as delícias da vida de uma yawô – Hanna ti Logunedé

Hannaly Oliveira, de 22 anos, tinha 16 quando começou a frequentar o candomblé. Por muito tempo, porém, a ideia de “fazer santo”, passar pelo recolhimento e por todos resguardos, era uma perspectiva remota, na qual a adolescente não pensava muito.

“Isso nem me cruzava os pensamentos. Até que Logun Edé achou o melhor lugar para nós, e eu automaticamente aceitei. Passou o medo, embora tenham ficado outros. Mas foi bem no momento que papai decidiu que estava no lugar certo, que a iniciação passou a ser uma consequência lógica na minha cabeça, sem que eu precisasse ser convencida. Eu quis”, afirma Hanna.

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Iniciada para Logun Edé – o jovem e belo filho de Oxóssi e Oxum – na nação Jeje-Mahi, raiz Cèjá Hundè, Hanna afirma que além de ter promovido uma revisão completa de seus valores e prioridades, o axé a modificou até mesmo fisicamente.

“Pode parecer bobagem, mas me sinto mais bonita depois que uni minha energia com a de Logun Edé. E eu gosto quando dizem que mudei. Hoje só luto pelo que realmente vale a pena, só choro pelo que merece minhas lágrimas e não perco mais o meu tempo com energias negativas, acumulando dentro de mim somente a energia plena, positiva e maravilhosa do meu Pai!”

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Naturalmente, o que não falta dentro de uma roça de santo é trabalho. Hanna diz que procura estar presente em todas as funções, pois se sente com uma “dívida” do bem com aquela casa e com aquelas pessoas que a tornaram vodunci, que trabalharam incansavelmente pra ela e para Logun.

“Quando você passa tantos dias lá dentro (na iniciação), eles são tudo o que você tem, são a estrutura que te mantém de pé nos momentos difíceis, então o vínculo que se cria é realmente muito forte”, explica.

Hanna afirma, entretanto, que a dedicação é integral. Para a jovem, não adianta você ser um bom filho na roça se não é uma boa pessoa com seu colega de trabalho.

“O santo está com você 24 horas por dia, sabe de todos os nossos sentimentos, até melhor que nós mesmos. Ser de axé significa lutar contra nossos instintos de vingança, de raiva, de vaidade… eu luto diariamente para me policiar quanto a isso.”

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Internet

A jovem mantém um perfil de asé desde antes de ser iniciada, onde publica textos e imagens a respeito de sua religião. Para Hanna, a internet pode ser usada como um instrumento de expressão de seu amor pelos orisás, além de ajudar a promover a união entre os adeptos do candomblé.

“A internet funciona demais para aproximar pessoas. Acho que ajuda, ainda em pequena escala, a mostrar ao povo de santo que temos direitos, e o dever de ir atrás deles, a internet já mostrou que juntos somos mais fortes nos últimos acontecimentos políticos relevantes pro povo de santo”, afirma Hanna.

Questionada sobre a percepção que as pessoas mais velhas de seu terreiro têm em relação à internet, Hanna afirma que o que eles não aprovam é, por exemplo, procurar alguma informação na rede antes de consultar primeiramente ao conhecimento deles. “A internet é terra de ninguém e há que se haver um filtro entre o que você lê e o que realmente você deve por em prática ou acreditar”, conclui.

A seguir, compartilhamos dois dos relatos postados por Hanna em seu perfil, que você pode acompanhar aqui. Inspirador!

A iniciação e a primeira saída de Logun Edé

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“De dentro daquele quarto que me acolheu por tantos dias, eu ouvia a esteira sendo estendida no chão, a madeira do apoti sendo colocado em seu devido lugar, os instrumentos soavam ao serem colocados na bacia. A erva já exalava um cheiro delicioso de vida nova!

Bateram na porta e me convidaram a renascer. Eu fui. Uma montanha russa de sensações que jamais poderia explicar. Eu sabia que devia absorver cada segundo daqueles na minha memória, pra nunca mais esquecer. Eles me aguardavam lá fora. O pano que prendia meus cabelos foi retirado com carinho e as lágrimas começavam a escorrer. Com medo do desconhecido que estava por vir, eu me sentei, sem pressa: finalmente tinha chegado o dia.

Como que para me acalmar, meus olhos começaram a se fechar involuntariamente. O coração, antes acelerado, agora batia firme e compassado. O pensamento tentava firmar-se na calma, nos pedidos, no amor: em todas as sensações, buscando não perder nenhum detalhe em meio à mistura de emoções.

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Ali, no centro das atenções da minha nova família, minha cabeça foi lavada, catulada, raspada. Era lindo.. mágico. Uma sensação de estar dentro de uma das histórias de literatura fantástica que tanto li antes de estar ali. Era tudo feito de amor e de paz. As lágrimas transformaram-se em colo de pai.

Foi quando no auge da minha emoção, uma cachoeira me tomou. Cachoeira, menino, rio, mata, caça, pai, AMOR! Minhas angustias foram indo e só ficando o aconchego. Eu estava sendo abraçada pelo encanto do meu pai. Ali eu era uma criança sendo parida por mãos de axé. Eles cantavam pra mim!

Ao som do meu coração tambor fui conduzido ao salão que rodava entre panos brancos e cheiro de vida, a cabeça baixa. Eu já não era, eu tinha me tornado. Tinha passado por dias que não se contavam cronologicamente. Apoiei o medo do desconhecido, apoiei minha cabeça raspada e cuidadosamente pintada.

Eu era conduzido sob olhares cuidadosos delas. Ao ritmo do adarrum. Eu tinha nascido e definitivamente e meu corpo tinha se tonado um templo de um deus, meu corpo já não era. Ele: o corpo tinha sentindo a água fria, o sangue quente e as minhas lágrimas salgadas. Eu tinha um deus que deixava meu corpo vibrante, eu tinha um orgulho de rei. Não existia duvida. Tinha ritmo. Tinha vida.

Ouvi o paó que rompia a madrugada, Ouvi o som do adjá, ouvi o bater forte do coração, meu mundo se fazia ali presente, e tudo girava, ele me conduzia por uma dança ao comando severo do som de um coração. Era preciso se apresentar, tornar publico aquele momento. Era preciso dizer o que já não era mais segredo. Atentos todos olhavam, todos queriam nos conhecer. Sobre mim repousam homens. Sobre mim repousam deuses. Era preciso dizer o meu nome, mas o meu nome já não era meu nome. Nesse dia eu tinha nome de rei.”

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Depois da iniciação… O resguardo e os preceitos! 

“Outro dia minha amiga pediu pra que eu a acompanhasse até o supermercado. Eu estava no meu período de preceito e nessa hora eu percebi que ela não tem a menor ideia de como é ser um yawo. Sim, ela sabe que eu sou de candomblé, mas não sabe o que isso implica. Então resolvi dar uma explicadinha sobre como é a vida de um yawo de preceito.

Quando eu tinha que ir a algum lugar, tinha que raciocinar como seria a minha passagem por lá. Sem poder sentar, teria que ficar horas em pé. Não dá pra andar com uma zan o tempo inteiro nas costas. Pra beber água, quando estava com sorte, a caneca estava na bolsa, senão, outro perrengue. Talheres (ou a falta deles), restrições alimentares, paó, rezas com horário marcado..

Em vários lugares, a sensação era de que eu não era bem-vinda lá, mesmo não implicando em nenhuma diferença no meu caráter ou na minha personalidade: as pessoas sentiram falta do meu cabelo. Sentiram falta da Hanna divertida que bebia com a galera nas festinhas. Sentiram falta das minhas roupas coloridas. Eu me senti sozinha em algumas horas.

E se dentro do ônibus alguém resolvia puxar papo comigo: porque, mesmo vazio, eu estava em pé? Sempre aquele olhar panorâmico, pra ter certeza de que aquela criatura não ia bater com uma bíblia na minha cabeça.

A cada saída da minha casa, precisava avaliar se valia o esforço de andar em público sozinha, porque provavelmente escutaria algum desaforo. Se eu tropeçasse, alguém ia passar por mim e sussurrar “ih, tá pegando o santo”. Já ouvi isso mais de uma vez. Se o ônibus estiver cheio e você resolver parar do lado de um cristão, ele pode me segurar pelo braço e dizer “Jesus te ama!” ou simplesmente levantar e sair de perto de você resmungando algo como ‘Deus me livre’. Acontece mais do que você imagina.

Eu poderia continuar, mas acho que está ficando triste, e essa não era a minha intenção. Eu não sou triste. Eu amo a minha religião. O meu santo. Me amo com todos os meus fios, meus contra-eguns, meu shaorô e minha umbigueira. Amo os meus panos de cabeça e minhas roupas brancas. Mesmo que um yawo seja o ganhador do Premio Nobel da Autoconfiança, isso vai continuar acontecendo.

“Ah, mas se vc sabia que seria difícil pq decidiu passar por isso?” Meu amigo, porque não há nada de errado comigo, nem com o meu orixá, nem com os enfeites que o axé me deu. Nenhum yawo tem que se encolher para caber no mundo, o mundo que precisa parar de tentar diminuir a gente!

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Este post foi publicado em: bem estar

por

Jornalista, 26 anos. Uso criativo do pensamento e da palavra.

6 comentários

  1. Rosa Costa diz

    Parabéns, por querer estar inserida neste contexto tão lindo e sério, que é a religião de matriz Africana, o Candomblé. O respeito é tudo que as pessoas devem ter com sua escolha. E vivenciar toda essa espiritualidade é verdadeiramente um ato de muito amor. Axé em sua caminhada.

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  2. kaiio henriky diz

    História linda meu deus axe ..iruaô meu pai o dono do meu ori meu rei logun ede não a nada melhor que ser do orixa preciso da sua página seu email por favor ..ameei muito nossa

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