Crônicas
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Abrindo os trabalhos: Minha história pessoal e o por quê fazer esse blog

Há quem acredite que nossas grandes questões, assim como as predisposições de nossa alma, já se pronunciam desde a infância, e que portanto, a gente deve observar o que fazia quando criança pra entender o que deve fazer pro resto da vida.

Tenho 25 anos, entrei pela primeira vez na internet devia ter uns 8, 9. Sou da geração de teste da internet, aquela faixa etária que esperava ansiosamente o sábado e domingo pra conectar o computador no fio do telefone e entrar no ICQ, fotologs, etc.

Por volta dos 11 anos tive meu primeiro blog, que infelizmente, por vergonha, deletei. Hoje seria uma delícia ler tudo aquilo que eu escrevia e conhecer de novo a criança que fui. O fato é que sempre gostei muito de escrever e desde nova, sempre tive uma sexualidade muito forte, apesar de vir a perder a virgindade tarde, aos 18 anos.

Quando nova, como tantas crianças, brincar de sexo era uma de minhas brincadeiras favoritas. Costumava inventar mil histórias, mil roteiros, que levavam sempre ao mesmo final: eu e a amiguinha uma em cima da outra, de roupa mesmo, a mão tapando as bocas que simulavam um beijo.

Acho que minha mãe tinha medo que eu virasse lésbica na época. Muitos anos mais tarde, uma amiga me contou – não lembrava – que depois de um tempo de amizade minha mãe proibiu que tomássemos banhos juntas e costumava acordar a gente no meio da noite pra mandar que cada uma fosse dormir na sua cama.

Masturbação lá em casa também sempre foi tabu. Acho que “tira a mão da perereca, menina” foi uma das frases que mais ouvi durante a infância, tempo em que, estando frio, uma das maiores delícias era assistir desenho na televisão esquentando a mão dentro da calcinha.

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Enquanto os meninos se reuniam depois da aula para jogar videogame e um ao lado do outro bater punheta inspirados pelo VHS da Silvia Saint ou de alguma outra atriz pornô de renome na época, entre as meninas quase não se tocava no assunto. Fora um boato ou outro de uma amiga corajosa que gostava de relar em seu grande urso de pelúcia, nós não falávamos sobre masturbação.

Acho que com o passar do tempo, aprendi a lição de que me tocar era errado e feio. Por muitos anos, leia-se minha adolescência inteira, eu praticamente não me masturbei. Não culpo minha mãe ou meus pais por isso, muitas meninas são igualmente podadas na infância e acabam que lidam de uma forma diferente com a proibição ou a canalizam para uma outra instância da vida. Sei que comigo foi assim.

Quando você conhece tão pouco seu próprio corpo, ainda que não tenha dificuldades de chegar ao orgasmo quando está com um parceiro ou parceira, você acaba associando prazer, satisfação e plenitude sexual à presença de uma outra pessoa. Isso tem implicações emocionais e afetivas profundas e diversas.

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Entre outras coisas, o feminismo entrou na minha vida como um instrumento de pensamento, um óculos, uma lupa ou uma lente grande angular que me permite olhar pra trás e revisitar minha própria história, ver que ela se parece com a de tantas outras mulheres – todas nós oprimidas por um sistema de pensamento dominante e estrutural que é o machismo.

Apesar de todas as críticas que tenho ao modo doentio e viciado como usamos as redes sociais, acredito na potência revolucionária da troca de vivências que acontece na internet – e por isso escrevo meu relato. Não me satisfazendo mais em escrever apenas no Facebook, inicio esse blog.

Clitóris Livre não é a história de uma mulher completamente livre, independente e bem resolvida; mas sim de sua trajetória diária de busca e libertação. O blog vai ser composto por reflexões minhas sobre temas como feminismo, anarquia e direitos humanos. Além disso, inspirada pela crença no poder de síntese e transformação da arte aliada à luta política aposto em uma curadoria de arte feminina e feminista em suas diversas expressões: música, cinema, artes plásticas, fotografia, literatura, filosofia, etc.

Ainda que por tantos séculos tenham nos silenciado, a mulher tem dentro de si tramas escondidas e o dom de contar histórias. Se existem tão poucas escritoras e poetisas não é por quê nós mulheres não saibamos escrever (embora por tanto tempo a educação feminina tenha sido negligenciada) mas por quê nossa voz nunca foi valorizada e nossos pensamentos sempre foram relegados às gavetas e aos diários.

O feminismo é hoje 2.0 e está muito além da teoria acadêmica. Me prontifico ao diálogo e me coloco aberta a receber para publicação textos sobre assuntos diversos sobre os assuntos supracitados. Pra quem escrita é necessidade, palavra é instrumento de libertação. Caminhamos juntas.

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21 comentários

  1. esse final me lembrou um poema do Ni Brisant:

    eu não escrevo para dar voz aos oprimidos.
    eu sou um deles;
    e estou aqui.
    minha gente nunca calou-se.
    meu povo só nunca foi ouvido

    ahaza, Loes!

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  2. me identifiquei muito!
    cheguei no blog a partir da matéria sobre OSHUN e to lendo uns artigos aqui e acolá
    to gostando! agradecida.

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  3. pretovifedeoxósseiansã diz

    Abre alas pra esse blog que vai ser enxurrada de coisa boa.
    Muita luz pra luta dessas mina.

    Salve, salve, Lulu. 😉

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  4. Que Lindo, Luísa!
    Estamos no mesmo mar, é bom perceber isso.
    Vou te acompanhar!

    Agradeço e desejo força pra continuar,
    Lara.

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    • salve lara! o apoio está sendo incrível! compartilhar minha história e ver que ela é a mesma de muitas outras minas.

      estamos no mesmo mar, sim! odoyá!

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  5. Simplesmente amando esse blog! Tudo, tudo, até do que discordo, pois me mostra que a pessoa por trás de tudo é tão humana quanto eu!

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    • ou, que lindo esse comentário! a onda é essa mesma, sou humana, uma pessoa normal, tô longe de ter posicionamentos perfeitos e resposta pra tudo… ❤

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  6. Alvaro diz

    Linda iniciativa! Cheguei até seu blog por uma amiga e colega da filosofia tântrica, que é essencialmente matriarcal e desrepressora. Comecei a estudar e praticar o tantra a um ano e meio atrás, e por tabela, comecei a descobrir meu lado feminino também (não, eu não sou gay!). Como o Tantra é matriarcal e desrepressor, aprendemos a perceber que todos possuímos 50% de energia masculina e 50% de energia feminina. Isso me fez entender muito melhor a natureza feminina. O poder do feminino. Existem workshops maravilhosos pra se explorar esse poder, e seus textos me inspiraram a divulgar pra você mesma e pra todas as mulheres. Vocês merecem!
    Novamente, gratidão pelos textos.

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    • ei álvaro! que coincidência, acabei de participar de uma vivência de tantra, chamado a arte do toque, do miho e da jaya, conhece? massagem dos 5 elementos, tô afim de escrever sobre isso também. que bom que gostou, sinta-se sempre bem vindo, beijão

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  7. Rozenbaum diz

    Oi Luísa! Por acaso te vi na foto de um amigo meu no fb, gostei mt dos seus posicionamentos pessoais( e sinceramente ate pela coragem de falar várias coisas sobre a mulher) e decidi te seguir! Suas idéias me fazem refletir como poderíamos ser mais livres, pensar sem padrões, julgar os outros menos.. Quando vc da sua opinião tudo parace ser tao simples! Apoio demais sru blog e desejo um futuro mt longo para ele!
    Em relação a esse post… Vi a imagem da mulher fumando e parecendo ter uma masturbacao muito mais intima e prazerosa.
    Sinto isto também. Sempre que fumo meus orgasmos são muito mais.. Maravilhosos! O que vc pensa sobre isso? A maconha nos faz sentir mais nos mesmos, ou eh por deixar a mente mais livre? Qual sua opinião?
    .
    De novo, meus sinceros parabéns ao blog!

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    • Rozembaum, antes de tudo super obrigada pelo apoio! Bom demais ler palavras assim!

      Então, pessoalmente adoro o combo maconha + masturbação.. Me deixa mais sensível e disposta a explorar meu corpo e fazer amor comigo mesma! Adoro! Boa ideia de pauta pro blog!

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    • Fumei por longos 20 anos e posso afirmar com convicção; altera seu nível de consciência, mas é artificial e provoca efeitos colaterais a longo prazo. O grande barato, e o que me fez largar esse meio artificial, é tão simples, tão simples, mas ninguém sabe fazer direito. RESPIRAR!!! Droga nenhuma eleva seu estado de consciência como a respiração feita de modo correto. Expirando e inspirando continuamente, sem interrupções, sem intervalo. É a técnica da respiração circular, ou respiração do renascimento. Sem brincadeira! além de te curar de um monte de neuras, traumas, vícios, te abrir a cabeça pra resolver um monte de questões profissionais, te liberar a criatividade, além de tudo isso, te dá um barato extraordinário. MESMO!!! Uma vez, experimentei me tocar ao mesmo tempo e tive um orgasmo transcendental.
      Dica, procurem em suas cidades por um terapeuta renascedor e experimentem!

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  8. Amei o blog! Me fez procurar uma poesia que fiz já no final da adolescência e que nunca compartilhei. Somos diversas mas, a repressão é a mesma:

    CANTADAS NO CONFESSIONÁRIO

    Pequei.
    Preciso me confessar
    encontrar absolvição
    esse meu jeito vulgar
    de não ter religião

    Será que você pode me ajudar?
    Não sei como faz para se confessar
    uma Madalena que ainda não se arrependeu
    e que não sabe amar como devia
    não tem a graça de Maria
    não sabe ser carinhosa e recatada.
    Céus! Não posso nem te ver
    que fico toda molhada…

    O padre deve recomendar
    umas trezentas novenas
    que eu faço sem reclamar
    se me livrar dessa pena
    quando você vem chegando
    é meu corpo quem te acena
    e sinto que desabrocha
    uma rosa úmida entre as pernas

    Sobem umas larvas do meu ventre
    eu me sinto em apuros
    sinto minhas faces a corar
    porque não te amo candidamente?
    Um amor singelo e puro
    eu não te quero no altar
    te quero mesmo é de pau duro!

    Tenho medo que o padre peça
    para me ajoelhar em contrição
    rezar para o santo de minha devoção.
    Porque eu sou devota de você
    e ficar de joelhos, não é conselho sábio
    posso te ver na minha frente
    e aumentar a tentação
    você assim inteiro
    ao alcance da minha mão
    ao passeio do meu lábio….
    Agora, até me comovo!
    Ai meu deus…
    Pequei denovo

    Curtido por 1 pessoa

  9. desculpe eu pular de paraquedas no seu texto, mas ele tem algo que ajuda em uma tese que eu estou elaborando: a pornografia [maldita ou bendita] foi crucial para que a mulher se desse conta do seu corpo.

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