Mês: maio 2015

Empatia é verbo – Sobre transfobia no feminismo

Em uma discussão sobre o medo das feministas da internet de serem estupradas por travestis no banheiro feminino, me acusaram de estar sendo muito desrespeitosa ao afirmar que “ser mulher é muito mais que ter uma buceta”. Gostaria de tentar explicar melhor meu ponto de vista. Por motivos que seriam interessantes de serem pesquisados, mas que no momento tomo como pressupostos, existem no mundo arquétipos do que é o masculino e do que é o feminino. O conteúdo desses arquétipos não é fixo, mas sim objeto constante de luta e negociação, o que faz com que, felizmente, ser mulher hoje em dia signifique uma coisa bem diferente do que significava na época de nossas avós. A luta feminista, pelo menos a luta que acredito, se volta à desconstrução dos papéis de gênero impostos historicamente pela sociedade patriarcal. Não acredito que a mulher seja em essência NADA. A mulher não é doce por natureza, nem pior motorista, nem melhor dona de casa. Da mesma forma, não existe um ponto de chegada para o feminismo. Não existe …

“Ah, aquela piranha…” A eterna rivalidade feminina

Dizem as estatísticas más línguas que Belo Horizonte, a cidade daonde venho, possui 10 mulheres para cada homem. Talvez seja diferente em outros lugares, mas por aqui uma coisa que sempre me intrigou é como homens e mulheres lidam de maneiras completamente distintas com o fato de ficarem com pessoas em comum. Enquanto dois homens, se já não eram amigos antes de beijarem a mesma dama, muito provavelmente o serão daí a pouco; a competição entre mulheres é tão forte que muitas vezes duas minas que por acaso coincidiram de se relacionar com o mesmo cara tornam-se inimigas mortais, um desafeto que é estendido para muito além do tempo de envolvimento delas com o par de calças em questão. “Ah, aquela piranha…” Se buscarmos à fundo, a competitividade feminina pode ser relacionada a diversos fatores. Pensemos nas brincadeiras infantis. Voltando ao modo como meninas e meninos são educados, podemos ter uma boa pista do por quê isso acontece. Enquanto meninos são criados com jogos e atividades estimulantes mental e fisicamente, recebendo incentivos para serem grandes …

Meu amor platônico está de cabelos trançados

“…Saravá mineira guerreira / que é filha de Ogum com Iansã…” Tenho olheiras escuras de quem dorme pouco e olhos grandes, daqueles que vazam branco embaixo da íris, feitos para desvender das pessoas o interior e o invisível em torno delas. Ando pelas ruas desatenta aos buracos mas especialmente desperta aos tipos humanos, o contorno de suas dores, a especificidade de sua beleza, a magia de sua presença. Tenho uma alma viva, apaixonada pela existência humana, em sua matéria e densidade, mas que no geral se satisfaz em apenas reconhecer a beleza do outro, abaixar os olhos e seguir meu caminho, ou no máximo, em dias mais alegres, sustentar brevemente o olhar que se cruza e permitir que do rosto floresça um sorriso. Ao lado dessa alma comunicativa e instintiva, nascida com necessidade de expressão e poesia, habitam em mim vários outros eu’s com personalidades distintas e muitas vezes divergentes. Um deles é meu censor/vigia, uma presença soturna, meio mal humorada, extremamente auto-crítica e um tanto pessimista, mas que ao mesmo tempo eu agradeço pela …

O que aprendi em um relacionamento à distância

Na adolescência, estudando em colégio particular, tive muitas amigas que foram passar um ano fora do país em programas de intercâmbio. “E o namoro? Você vai terminar, né? Deixa de ser boba, se desliga dessa realidade daqui, vai aproveitar a vida…” Do alto dos meus 16 anos de pretensa experiência e vivência, esse era o meu conselho para todas que iam em busca do novo, além-mar. Alguns anos mais tarde, vivi meu primeiro amor. Pra algumas pessoas acontece aos 7 anos de idade, pra mim aconteceu aos 21. A gente se conheceu quando entramos no curso de Ciências Sociais, mas só depois de uns 3 anos de amizade é que fomos, bêbados que nem dois cachorros, dar nosso primeiro beijo. E eu vi luzes coloridas quando beijei ele pela primeira vez. Na época, até mesmo os amigos dele me advertiam pra tomar cuidado, que ele não era homem pra se apaixonar. Sem muita expectativa, segui o conselho. Nos encontrávamos na casa dele e depois de fazer amor uma, duas, três, quatro vezes… eu contava pra …

As dores e as delícias da vida de uma yawô – Hanna ti Logunedé

Hannaly Oliveira, de 22 anos, tinha 16 quando começou a frequentar o candomblé. Por muito tempo, porém, a ideia de “fazer santo”, passar pelo recolhimento e por todos resguardos, era uma perspectiva remota, na qual a adolescente não pensava muito. “Isso nem me cruzava os pensamentos. Até que Logun Edé achou o melhor lugar para nós, e eu automaticamente aceitei. Passou o medo, embora tenham ficado outros. Mas foi bem no momento que papai decidiu que estava no lugar certo, que a iniciação passou a ser uma consequência lógica na minha cabeça, sem que eu precisasse ser convencida. Eu quis”, afirma Hanna. Iniciada para Logun Edé – o jovem e belo filho de Oxóssi e Oxum – na nação Jeje-Mahi, raiz Cèjá Hundè, Hanna afirma que além de ter promovido uma revisão completa de seus valores e prioridades, o axé a modificou até mesmo fisicamente. “Pode parecer bobagem, mas me sinto mais bonita depois que uni minha energia com a de Logun Edé. E eu gosto quando dizem que mudei. Hoje só luto pelo que realmente vale a pena, …

Manual da Masturbação Lesbofeminista

Versão em português do “Manual da Masturbação Lesbofeminista” publicado originalmente em espanhol na Pikara, uma revista virtual latino-americana que posta vários conteúdos fodas. Apesar do título e de alguns pontos do manual diretamente direcionados às mulheres lésbicas, o guia é útil à todas as mulheres que querem conhecer melhor seu corpo e se amarem mais. Bom proveito! De antemão, adianto que não concordo com absolutamente todos os pontos do manual, mas que se me dispus à traduzir tal conteúdo é porque compactuo com a ideia geral do texto. Não alterei nada do mesmo por respeito às autoras. Aqui falamos de amor: nenhum comentário machista, preconceituoso ou que incite o ódio será tolerado. Manual da masturbação lesbofeminista (“Eu mereço estar sexualmente satisfeita. As mulheres merecem estar sexualmente satisfeitas. Eu mereço orgasmos múltiplos. Eu mereço essa merda”) Sobre o lugar: Busque um espaço privado, um lugar onde não seja interrompida por requerimentos de cuidado, asseio, alimentação, suporte emocional ou reforço aos egos masculinos. Ainda que nós mulheres tenhamos sido historicamente excluídas dos espaços públicos, isso não significa que nós tenhamos privacidade. Para nós, a …

Conheça Oshun, um duo feminino de hip hop de Nova York com influências yorubá

Embora os Estados Unidos tenha sido erguido a partir da exploração de mão de obra escrava negra, tal qual o Brasil e Cuba, fora as menções à prática de vodu nas províncias do sul (como Louisiana e Nova Orleans) muito pouco se ouve falar a respeito de tradições religiosas africanas que se mantiveram vivas no processo de colonização das terras do Tio Sam. Sendo do candomblé, isso sempre me intrigou. Qual não foi minha surpresa quando conheci esse duo feminino de hip hop chamado Oshun. Formado por  Niambi Sala e Thandiwe, duas jovens negras de apenas 19 anos residentes em Nova York, o duo referencia Oxum, a deusa yorubá das águas doces, da beleza, da riqueza, do amor e da fertilidade. Com inspirações musicais que vão de Nas, Lauryn Hill e Erykah Badu à John Coltrane, Miles Davis e Herbie Hancock, a musicalidade de Oshun é descrita pelo duo como iya sol, uma mistura de neo-soul e hip hop. As letras, por sua vez, são carregadas de espiritualidade e mensagens positivas de empoderamento, amor próprio e resgate às raízes. Nem tudo …

Projeto “Despudorados”: Explicando melhor a proposta – Convite e instruções

Ainda que parecidos, não há neste mundo um ser que seja exatamente como outro. Cada indivíduo traz à Terra sua história, que é unica, suas particularidades físicas, psicológicas, emocionais, espirituais… Na idiossincrasia de cada ser, ou seja, nas características únicas de cada pessoa, reside sua beleza. O problema é que em um mundo cada vez mais padronizado, onde até mesmo o dito ‘alternativo’ tem regras próprias e receitas a serem seguidas, tendemos a negar nossas particularidades, nossa essência, para nos encaixar de alguma forma nos moldes que nos foram apresentados.Na rígida disciplina social imposta sobre nossos corpos, instaura-se qual é o tipo de cabelo ideal, o formato da barriga e do peito aceitável, a quantidade de pêlos permitida, o tamanho do pinto, e assim por diante. Racionalmente todo mundo sabe que a capa da revista recebeu quilos de Photoshop para ficar com aquela pele, aquela bunda, aquela cintura e aquela axila branca e lisinha… e que na verdade, até mesmo mulheres que dedicam sua vida em prol de esculpir o corpo também possuem celulite, estrias, um peito …

Abrindo os trabalhos: Minha história pessoal e o por quê fazer esse blog

Há quem acredite que nossas grandes questões, assim como as predisposições de nossa alma, já se pronunciam desde a infância, e que portanto, a gente deve observar o que fazia quando criança pra entender o que deve fazer pro resto da vida. Tenho 25 anos, entrei pela primeira vez na internet devia ter uns 8, 9. Sou da geração de teste da internet, aquela faixa etária que esperava ansiosamente o sábado e domingo pra conectar o computador no fio do telefone e entrar no ICQ, fotologs, etc. Por volta dos 11 anos tive meu primeiro blog, que infelizmente, por vergonha, deletei. Hoje seria uma delícia ler tudo aquilo que eu escrevia e conhecer de novo a criança que fui. O fato é que sempre gostei muito de escrever e desde nova, sempre tive uma sexualidade muito forte, apesar de vir a perder a virgindade tarde, aos 18 anos. Quando nova, como tantas crianças, brincar de sexo era uma de minhas brincadeiras favoritas. Costumava inventar mil histórias, mil roteiros, que levavam sempre ao mesmo final: eu e …